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DOCUMENTÁRIO: Caçambada Cutuba expõe fosso entre elite e povo ao retratar fato político

Após comício em 62, caminhão da prefeitura avança sobre apoiadores de candidato da oposição.

BLOG DA MARA PARAGUASSU

19 de Agosto de 2019 às 17:53

DOCUMENTÁRIO: Caçambada Cutuba expõe fosso entre elite e povo ao retratar fato político

FOTO: (Divulgação)

Um documentário que retrata um episódio político protagonizado por dois grupos rivais históricos, pouco conhecido dos rondonienses e mesmo da população de Porto Velho, será exibido no próximo dia 13 de setembro, no Teatro Guaporé. Caçambada Cutuba expõe o ápice da rivalidade política entre cutubas e peles-curtas, quando em setembro de 1962, após encerramento de um comício, um caminhão basculante da prefeitura passou por cima de centenas de apoiadores do médico Renato Clímaco Borralho de Medeiros, candidato a deputado federal pela Frente Popular.

 

A conta de um morto e 25 feridos entrou para a história pelas páginas do jornal “Alto Madeira”, mas o idealizador do documentário, o jornalista e bancário aposentado Zola Xavier da Silveira, afirma que à época as forças de segurança locais impediram que detalhes do fato fossem apurados, não se sabendo ao certo, até hoje, se o número de vítimas corresponde ao que foi divulgado.  “O jornalista Euro Tourinho recebeu ameaças para não levar adiante suas reportagens”, diz.

 

Era um tempo em que as pessoas ou eram cutuba ou pele-curta, e o episódio ocorrido em Porto Velho retrata o fosso que existia entre a elite política e o povo, no primeiro caso comandada pelo então coronel Aluízio Pinheiro Ferreira, cacique da política rondoniense. Zola Xavier falou com o Blog da Mara:

 

Blog da Mara – Caçambada Cutuba trata de um episódio político em Porto Velho, colocando em evidência forças adversárias. O que levou você a documentar  a história ocorrida após comício eleitoral?

 

Zola Xavier – Foi a minha perplexidade diante de uma tragédia com um sem número de feridos e mortos, que refletia o clima político reinante naquela época. Desenvolvi grande parte da minha pesquisa sobre o assunto na Biblioteca Nacional, tendo sido, inclusive, o tema da minha monografia de conclusão do curso de Jornalismo. O episódio aconteceu na noite de 26 de setembro de 1962, após o comício de encerramento da campanha da Frente Popular, que tinha como candidato a deputado federal o Dr. Renato Clímaco Borralho de Medeiros.  A multidão saía em passeata para levar o candidato até a sua casa quando um caminhão basculante, placa branca, da prefeitura de Porto Velho, avançou sobre a massa humana, matando e ferindo um sem números de vítimas. Segundo o jornal “Alto Madeira”, havia mais de cinco mil pessoas no local.  A luta política de então se dava entre as forças populares de um lado e as oligarquias do outro, que tinha como figura principal o lendário coronel Aluízio Ferreira.

 

Blog da Mara – O documentário tem apoio do poder público, teve alguma subvenção?

 

Zola Xavier – Não, resulta do esforço de amigos, cada um investindo o que pode, uma produção feita na cara e coragem. O Anísio Gorayeb é um dos nossos co-produtores, tem uma seleção de pessoas muito boas que ajudaram na filmagem, edição, roteirização. Eu me encarreguei das pesquisas, da elaboração do argumento. Desde 2008 faço tentativas para uma produção audiovisual. Acredito que se houvesse uma política estadual para o audiovisual em Rondônia, essa e muitas outras histórias já poderiam ter sido contadas.

 

Blog da Mara –  Esse fato nunca retratado em vídeo. Você se interessou pela história. A política está  presente em sua vida faz tempo?

 

Zola Xavier – Desde minha juventude, em Porto Velho, no Colégio Dom Bosco, fazendo teatro de resistência à ditadura militar e com amigos pichando os muros da cidade com palavras de ordem contra o regime. Em 1972 fui para o Rio de Janeiro, onde atuei como secretário da Juventude no Movimento Democrático Brasileiro, na cidade de Niterói. Passei no concurso para o Banco do Estado do Rio de Janeiro, no ano de 74, entrando para o movimento sindical. Fui diretor de Imprensa do Sindicato dos Bancários, em 79, na gestão da primeira diretoria eleita, após longo período de intervenção federal sofrido pela entidade.

 

Blog da Mara –  A política ainda entusiasma você enquanto militante e cidadão?

 

Zola Xavier –  Sim. Continuo sendo um entusiasta e continuo militando. Eu reputo o documentário Caçambada Cutuba como uma ação política concreta.

 

Blog da Mara – Natural de Fortaleza do Abunã, filho do vereador Dionizio Xavier da Silveira, o Dió, há muitos anos você mora no Rio de Janeiro (cidade de Maricá). De que forma as pessoas do seu engajamento social e político veem a Amazônia ?

 

Zola Xavier –  Eu noto que a Amazônia ainda está muito distante para essas pessoas. Há um desconhecimento grande  sobre a nossa região. No caso específico do Caçambada Cutuba, quando eu tenho a oportunidade de falar sobre isso, as pessoas ficam impactadas, surpresas com a revelação.

 

Blog da Mara –  Tem pretensão de fazer outros documentários com temas do universo da política?

 

Zola Xavier – Sim. Pois a nossa história é instigante. Como por exemplo a importância da imprensa popular nas décadas de 50 e 60, período de grandes e acirradas disputas eleitorais, marcado pelas perseguições, espancamentos, prisões arbitrárias, empastelamento e invasões nas redações e oficinas dos jornais.  Mas não apenas temas políticos. O incêndio do Mercado Municipal e suas consequências para vida da cidade de Porto Velho  é outro que está na lista.

 

Blog da Mara –  O filme será lançado no dia 13 de setembro, data de constituição do Território Federal do Guaporé, que surge por desmembramento de terras de Mato Grosso e Amazonas. O comício de Renato Medeiros também foi em setembro.  Foi por isso que escolheu esta data?

 

Zola Xavier – Exatamente. O 13 de setembro é um marco da história de Rondônia. O lançamento nesse dia procura fazer esse resgate. Não tenho conhecimento de que se comemore essa data, ela tem sido esquecida. O Teatro Guaporé, onde será lançado o documentário, carrega essa simbologia.

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