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SILVANA

POR ALBERTO AYALA

23 de Agosto de 2019 às 16:53

Olhou da janela o rapaz passado em passos lentos. Rapaz bonito, esbelto, sempre com uma boa figura. Assobiou e ele a olhou meio sem graça. Ela sorriu para Pierre. Então, o jovem aproximou-se da janela. Entre, querido. A noite está tão bela. Não pense que na vida só se deve viver trabalhando. Vejo que todos os dias você vai e volta daquele seu emprego sem graça na fábrica. Não. É preciso ter prazeres carnais. Desculpa ser tão franca! Mas eu penso assim. E o seu marido? Ah! Ele não se encontra. Viajou. Como sempre. Vive viajando e me deixando aflita em casa. Ouço o rádio, mas as canções de amor não cessam o fogo que há em mim. Somente um homem viril como você pode me amar da forma certa. Pode me dar prazer. É perigoso trair, dona. Tire o dona, querido. Não sou tão velha. Ou você me acha? Não. Imagine. A sua aparência é digna de admiração. Muita beleza. E por que você não decide logo o que quer  e entra logo. Tenho vinho, uvas, uma cama quente, um corpo que quer transar. Ou você não é macho? Claro que eu sou! Prove. Palavras não bastam. Quero provas, demonstrações. Eu quero você, rapaz. Mesmo que somente por uma noite. Eu quero que hoje você seja o meu amante perfeito. Pode ser? O seu marido é amigo do meu pai. Isso é uma atitude atrevida da sua parte. Não. Ele está velho demais para pensar em vingança. Não seja infantil, mulher. Não estou sendo. O meu marido não quer mais guerra. Na cama ele só dorme. Não faz mais nada há meses. Então eu não sou a primeira vítima? Vítima? Por que vítima? Porque tê-la nos braços é algo clandestino. Meu Deus! As mulheres podem sim ter paixões clandestinas. Os homens vivem as suas e a sociedade não condenam os que agem assim. A sociedade é machista. Um homem pode ter várias mulheres, mas a mulher deve-se manter pura. A moral de uma mulher vale mais que o ouro. Mais que as riquezas da Terra. Eu prefiro ser devassa e ter joias, belíssimos vestidos, sapatos e sapatos, tudo e não ter moral. Afinal, ter moral é garantia de felicidade? Não. Não é. Nunca será. Eu vejo muitas mulheres boas sendo castigadas. E olha que elas são exemplos de moral. Mas mesmo assim são maltratadas, humilhadas no casamento. Eu vi você conversando com um pai de santo. Você acredita no mundo espiritual? Sempre acreditei. Minha mãe era mãe de santo. E o que vocês conversavam? É muita curiosidade da sua parte, rapaz. Eu tenho os meus segredos. Todas as mulheres possuem os seus segredos. Você é uma macumbeira! Eu não me deito com uma macumbeira. Você já se deitou. Não. Eu não. Nos seus pensamentos você já me levou para a cama várias vezes. Mas é claro que você não vai admitir isso. Mas eu sei que sim. Que você me deseja. Eu tenho a pombagira. Eu sou absolutamente sensual. E não venha me dizer que eu não sou. É uma ofensa. Eu sou gosto de homens e de mulheres, Silvana. Eu sei disso também, Pierre. É visível. Você é um homem delicado. Gosta de ler. Como você sabe que eu gosto de ler? Você sabe que eu sei de tudo. Silvana, eu tenho que ir. Não. Você entra. Já falei que eu não sou um homem de verdade. Não minta, querido. Você é sim um homem de verdade. Até mais interessante dos homens que se acham demais. Você é imperfeito. Isso é excitante! Muito, muito excitante. Me deixa louca. 

 


    Sem entender as palavras de Silvana, o jovem caiu numa leve risada. Queria até ir embora, mas uma força o fazia ficar diante daquela mulher cheia de artimanhas. Num ímpeto, ele pulou a janela e beijou Silvana com muita vontade. Rasgou o seu vestido e viu os seus seios. Ela rasgou a blusa dele e deu uma bofetada no rosto de Pierre. Safado. Eu sabia que você escolheria o prazer. Ótima escolha, garoto! Você não vai se arrepender. Jamais! Jamais!

 


    Delicadamente, Silvana levou o jovem para o seu quarto. Ao entrar no pequeno antro, ele, Pierre, assustou-se. Deparou-se com um homem pelado, deitado na cama, fumando um cigarro. O que é isso? É o meu amante. Você não me contou que já tinha uma pessoa. Mas ele não é uma pessoa. Como assim? Não. Ele não é uma pessoa. Acredita em mim, meu bem. Você me enganou. Mentir é feio, Silvana. Safada. Vagabunda. É isso o que você é. Uma mulher que vive uma vida devassa. Vive na devassidão. Não fala o que você não sabe. Não abra a boca na hora errada, garoto. Pensa que sabe alguma coisa da vida? Não sabe nada. 

 


    Inesperadamente, o espírito do homem que estava na cama desapareceu. Ao ver isso, Pierre soltou um grito de arrepiar. Saiu correndo nu da casa de Silvana. Ao chegar na rua, ofegante e muito assustado, viu um carro estacionar na sua frente. Sentou-se no asfalto sentindo-se meio sem ar. Um velho, de setenta anos, desceu do automóvel, segurava um revólver na mão direita e o apontou na direção do moço. Ele fechou os olhos esperando a morte que já era certa naquele momento extremamente crítico. Orou bem baixinho. 

 


    Silêncio. Abriu os olhos. Deus, me ajuda! Me ajuda, Deus! As lágrimas escorriam pelo seu rosto suado. Começou a chorar. Gritou desesperado. Estava num caixão. Enterrado vivo. 
 

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