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Sem torção ideológica, poeta guaporeense oferece análise equilibrada sobre as Farc - Política em Três Tempos -por Paulo Queiroz

Sem torção ideológica, poeta guaporeense oferece análise equilibrada sobre as Farc - Política em Três Tempos -por Paulo Queiroz

DA REDAÇÃO

2 de Março de 2008 às 08:18

Sem torção ideológica, poeta guaporeense oferece análise equilibrada sobre as Farc -  Política em Três Tempos -por Paulo Queiroz

FOTO: (Divulgação)

1 – NÓS E AS FARC Com a quase totalidade dos meios de comunicação do Brasil essencialmente pautada pelos interesses econômicos dos EUA – como de resto, de todo continente americano, da Patagônia aos ermos do norte canadense – é extremamente difícil encontrar na imprensa informação descontaminada da manipulação maniqueísta de que se servem os donos do pedaço e seus lacaios nacionais para manter as populações entorpecidas com as verdades que lhes convém. A tragédia reside em que jornalistas e intelectuais que fazem girar tais meios, na maioria dos casos por idiotia ou preguiça cerebral, atuam sob o efeito manada, reproduzindo automática e irrefletidamente todos os discursos da elite dominante, sem desconfiar da sua parcialidade e nem dos seus efeitos nocivos. Repare o leitor no noticiário mais destacado da semana, o que deu conta da libertação, por iniciativa das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), de quatro reféns da guerrilha. Aqui e alhures, raro o veículo de comunicação – por conseguinte, raro também o jornalista - que não tratou as Farc como uma “narco-guerrilha”, um grupo de celerados que financia a violência pela violência com resgate de seqüestros e o tráfico de drogas. Vira e mexe, no entanto, é possível encontrar fazendo imprensa alguém que, em não tendo renunciado à capacidade de refletir, produz raciocínios conseqüentes, originais e equilibrados sobre os fatos que observa. A julgar por dois artigos sobre as Farc, ambos publicados pelo site porto-velhense “Gentedeopinião” (o mais recente ainda acessível), tal é o caso do poeta e escritor guaporeense Matias Mendes, sobretudo porque textos despojados do menor vestígio de ranço ideológico. Correndo o risco de ser tomado como mais um porta-voz da “narco-guerrilha colombiana” – o outro, “por supuesto”, seria o poeta -, o repórter andou garimpando informações sobre o assunto em fontes insuspeitas, cujo resumo segue como uma tentativa de oferecer ao leitor uma visão, ainda que fugaz, do outro lado da moeda. 2 – LUTA INCESSANTE Grande parte dos guerrilheiros das Farc é composta de camponeses pobres, cuja miséria os levou às fileiras rebeldes. Lá aprendem a ler e a lutar. Outros, com formação, vêem na guerrilha a única chance de mudanças políticas no país. Não obstante hoje embrenhados na selva, onde estão desde os idos de 1964, sua luta remonta ao final dos anos 40, quando são recrutados por parte da elite colombiana nacionalista para combater os governos títeres do grande capital norte-americano. Embora a América Latina inteira sempre tenha sido impiedosamente espoliada pelo império do Norte, em alguns países movimentos nacionalistas mitigaram a extorsão deslavada. Alguns representantes deste giro histórico foram Cárdenas, no México, Perón, na Argentina e Getúlio Vargas, no Brasil. A nacionalização do petróleo e o investimento industrial foram pautas importantes destas mobilizações. Em outros, porém, como a Colômbia, o grande poder da elite conservadora, alinhada com o expansionismo voraz dos EUA, impediu que reformas progressistas ocorressem. Lá, depois da II Guerra, a situação de ingerência externa por parte das multinacionais chegou a tal ponto que a dita elite progressista, aliada aos pequenos grupos socialistas de então, iniciaram uma verdadeira guerra civil contra o governo conservador. Pipocaram levantes armados para todo lado e não foi pouco o sangue derramado. Noves fora o fantástico da literatura, quem leu “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Márquez, sabe do que se está falando. Após quase duas décadas de luta guerrilheira e a conquista de algumas reivindicações políticas, os progressistas tentam frear o movimento ao perceber que o avanço das forças aliadas socialistas se acelerava além do esperado sob a influência do triunfo revolucionário cubano.Traem, então, o acordo com os camponeses, passando para o lado conservador. Em 1964, milhares de soldados são enviados para reprimir os que permaneceram rebelados. Não há o que fazer - a não ser se embrenhar na floresta. 3 – BANDEIRA BRANCA Não é de hoje que as Farc tentam uma solução política para acabar com o conflito. Na década de 1980, após negociações de paz, as Farc depuseram as armas, com garantias de proteção e segurança, instituindo-se como organização política para a disputa legal. Formou-se, então, a União Patriótica (UP), que obteve bons resultados eleitorais, sobretudo por sua grande inserção popular e enorme capacidade de mobilização. Entretanto, sobreveio-lhes a tragédia: em dois anos, mais de 3 mil membros da UP foram assassinados, além da matança de militantes dos movimentos populares e sindicais. Por trás do genocídio, não bastassem as forças estatais, grupos paramilitares de direita - mercenários contratados por grandes traficantes e grandes fazendeiros, além de financiamento estrangeiro. Assim, após curto período de vida institucional, a UP, por força da inviabilidade absoluta de manter-se indefesa diante de tal massacre, abandonou a legalidade e voltou às armas, novamente assumindo o papel de exército popular, até os dias atuais. Muitos têm sido os esforços das Farc em buscar a via negociada, visto a constatação da evidente impossibilidade de uma solução - seja para qual lado for - pelas armas. Aliás, o primeiro dos artigos de Mendes aborda com grande clareza essa questão – e olhe que, como ex-militar da selva, o poeta sabe do que está falando. O governo colombiano, obviamente, também sabe disso. Mas ceder espaço político para o pessoal das Farc significa contrariar os interesses dos grandes grupos - sobretudo norte-americanos - que monopolizam o grosso das riquezas colombianas, além de interromper o curso dos rios de dinheiro que os EUA derramam nos bolsos dos governantes para tentar aniquilar a guerrilha sob o pretexto de combater o narcotráfico. Falando nisso, se alguém tem rabo preso com o setor, a probabilidade maior recai sobre o próprio presidente Álvaro Uribe, que entrou na política após ser expulso da Força Aérea sob a acusação – adivinhe - de tráfico de droga. Pois!

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