Nina Frau Oliveira Küller amava a estabilidade - Por Charles Frazão de Almeida

Por Charles Frazão de Almeida

Nina Frau Oliveira Küller amava a estabilidade - Por Charles Frazão de Almeida

Foto: Divulgação

 

Gostava de ser chamada por Nina Frau. É que a inclusão de “Oliveira” que a fez “cristã nova”, por imposição religiosa, não lhe soara bem. Aos 96 anos, atravessou de Hitler (com seu  saudoso seringalista Küller, alemão refugiado na Amazônia em 1942),  ao tumulto que espanta o mundo desde o final de 2019.

 

Seus três filhos, carinhosamente apelidados de Esaú, Jacó e Próspero, eram o seu único planejamento familiar do que restou de Küller. Tão idosos quanto ela (todos já sexagenários), imaginava que os educava, no ano passado, na rígida moral judaico-cristã. Apesar de tudo, era muito otimista. Falava-lhes que o mundo voltará ao normal e tinha sete motivos para acreditar que na ciência estaria solução. Aliás, sete era seu número favorito. 
 
 
Dos dias da semana ao Arco-Íris, tudo a levava estimulá-los que, em breve, soluções estariam a caminho. Aliás, sete era, também, o número de filhos que queria ter parido.
 
 
Mas que se contentara com os três que Deus lhe deu. E isso a deixava confiante, trazia-lhe estabilidade. Não gostava de Zygmunt Bauman  e da sociedade líquida. Seu mundo era assim, estável e perfeito. 
 
 
Sempre dizia a si que melhor alegria da minha vida era ver os filhos em harmonia. Ainda criança os fez jurarem que dos três, somente dois sairiam para o mundo para ganhar dinheiro e ter família. Serem, por assim dizer, pessoas de boa reputação na sociedade.
 
Para cumprir tal promessa deveriam sustentá-la, juntamente com aquele que a cuidaria em casa até o fim, auxiliando-a em casa e nos recolhimentos das rendas de alugueres de seus imóveis; afinal, um dia ela se cansaria. 
 
 
E assim, Esaú converteu-se em digno funcionário público de carreira. Morava em condomínio de luxo e firmou sociedade com Jacó, empreendendo em posto de combustível. Jacó, por sua vez, teve vida modesta com o que lhe rendia da sociedade celebrada com o irmão.
 
 
Mas não continha sua inveja ao comparar seu patrimônio e à condição de vida de Esaú. A sociedade foi desfeita pouco tempo depois. E, desde então, não se falam há vinte anos. 
 
 
Próspero, cuidou até o fim de dona Nina Frau, mas o tédio somado a ansiedade da juventude o fez mergulhar por algum tempo nas drogas.
 
 
Conheci-o quando egresso de um refúgio para dependentes químicos. Ficamos amigos. Estudávamos juntos a Bíblia. Como inclinara à família, a propriedade e sua fé religiosa, seguiu cuidando sua mãe até o fim. Não arrumou emprego ou se casou.
 
 
Tentei explicar à Dona Nina Frau que, talvez, fosse acertado fazer um planejamento familiar e empresarial (do que restava dos imóveis antigos). É que, de seus rendimentos mensais de trinta mil reais, pagava algo em torno de sete mil reais de tributos. E, se resolvesse criar e transferir os bens para empresa familiar, por exemplo, poderia economizar a metade.
 
 
E, ainda com a facilidade de menor carga tributária por ocasião da divisão da herança. Contudo, não aceitou a sugestão; afinal, não gostava de leis, muito menos de advogados.
 
 
Soube, no mês passado, que ela tentou lavar o banheiro, desequilibrou-se e fraturou gravemente a bacia. Com idade avançada não suportaria operação indicada pelo médico, optaram por sedativos até sua morte. Jacó disse que ela morreu feliz conversando com os filhos.
 
Próspero, herdeiro da promessa,  agora sozinho no mundo, desempregado, permanece sustentado por seus irmãos, que já não são mais os mesmos. Pela desarmonia é possível que enfrentarão longos anos na justiça para dividir a herança. 
 
 
Das mais de 100 milhões de ações no judiciário brasileiro, os inventários ocupam lugar de destaque. A estória de Nina Frau pode ser, também, a daqueles que não planejam a melhor forma de, nos limites da norma, pagar o menor tributo e preparar a passagem dos bens que não cabem no caixão.
 
 
Isto, por acreditar que um dia, neste mundo instável, terá tempo para se planejar. Como diz o  Gustavo Tepedino , citando   Pietro Perligieri: "a desigualdade mais odiosa e mais penosa não se estabelece entre quem tem e quem não tem, mas sobretudo entre quem sabe e quem não sabe”.
 
 
Charles Frazão de Almeida é Contador e Advogado, atua na área de planejamento familiar e empresarial. Endereço eletrônico: frazao53.advocacia@gmail.com 
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