Explodiu o preço nas bombas de combustível em Cabixi, Costa Marques, Machadinho D'Oeste, Nova Mamoré ou na zona leste de Porto Velho. Fruto das sandices de Donald Trump. Ele resolveu mexer com os iranianos e o preço do petróleo disparou. A lógica é simples, daquelas que até o homem comum entende: o Irã tem petróleo e tem o Estreito de Ormuz. Se alguém espirra no Estreito de Ormuz, a pneumonia chega direto às bombas de combustíveis.
Para tentar conter o estrago — já que importamos boa parte do diesel que consumimos —, o governo federal bolou uma saída de emergência por sessenta dias. Um subsídio de um real e vinte centavos por litro. A União entra com a metade, e os estados dividiriam a outra metade. Uma espécie de vaquinha republicana.
Todos os estados aceitaram, exceto o Rio de Janeiro e Rondônia. O Rio de Janeiro a gente até entende. O Rio não vive uma crise, vive uma tradição. Lá, o destino final de um governador é a carceragem. A história recente do povo carioca tem mais capítulos policiais do que políticos.
Mas e Rondônia?
Por aqui, o valor final da partilha seria de vinte e cinco milhões de reais. Apesar de governada por um carioca, a economia local vai bem, obrigado. Mas o agronegócio, nosso orgulho e sustentáculo, depende do diesel como um pulmão depende de oxigênio. Mesmo assim, o governo preferiu cruzar os braços.
A memória do contribuinte anda curta, mas não tanto. Em 2018, tivemos aquela greve dos caminhoneiros que parou o país. Para resolver o imbróglio, o governo de Rondônia perdeu cento e vinte milhões de reais na época. O mundo não acabou.
Em 2022, quando a Ucrânia foi invadida e o combustível subiu de novo, o cenário era outro: era ano de eleição. Diante do risco de perder votos, o pessoal que idolatra Trump e Netanyahu correu para zerar o ICMS. Houve uma pressa comovente em ajudar o bolso do cidadão. Tudo pelo voto.
Passada a eleição e garantida a cadeira, a generosidade evaporou. Por aqui, o ICMS não só voltou ao normal como sofreu um aumento generoso, sob o pretexto de uma reforma tributária que ninguém sabe quando vem. Nos últimos três anos, o dinheiro entrou aos jorros nos cofres do Estado. Por que a recusa atual, então?
A questão pode estar no percentual. Em 2018, a renúncia fiscal custou 1,5% do orçamento do Estado. Agora, a proposta do governo federal custaria ridículos 0,13% do orçamento atual de mais de dezoito bilhões de reais.
A causa da recusa só pode ser superstição. Talvez o governador tenha olhado para o número 0,13% e enxergado ali o número do PT, o que lhe causa arrepios ideológicos, apesar da “bonificação eleitoral” recebida do povo do 13 em 2022.
Se o problema for puramente ideológico, sejamos práticos: o governador arredonda a sua contribuição para os números de sua preferência política, seja 0,17%, 0,22% ou 0,55%. Assim, mantém fidelidade à sua ideologia partidária e o povo de Rondônia ganha um fôlego para suportar os efeitos dessa guerra estúpida, a qual, além do preço dos combustíveis, tem todos os ingredientes para nos lembrar das mensagens assustadoras do Apocalipse.
* DANIEL PEREIRA, advogado e ex-governador de Rondônia.