As orações de tempos idos, entoadas em terços familiares sob a luz de lamparinas ou ao pé da cama, carregavam um clamor que atravessa os séculos: “Senhor, livrai-nos da peste, da fome e da guerra”. O que para muitos soava como um eco distante de um passado medieval revelou-se, na verdade, um ciclo trágico e indissociável da experiência humana. A história não se repete por acaso; ela se encadeia em uma lógica de causa e efeito que a modernidade ignorou por sua própria conta e risco.
A Idade Média nos oferece o exemplo primordial desse efeito dominó. Em um cenário de conflitos permanentes entre reinos e clãs, a Europa viu-se devastada pela Peste Negra. A escassez de conhecimento científico e a precariedade sanitária foram apenas os catalisadores; a guerra serviu como o rastro de pólvora. A consequência imediata foi o colapso do sistema de produção: sem camponeses para lavrar a terra, a fome seguiu-se à doença e à espada, fechando o cerco sobre a sobrevivência humana.
Séculos depois, o roteiro manteve sua crueldade. A chamada Gripe Espanhola não surgiu no vácuo; foi o epílogo sangrento da Primeira Guerra Mundial. O deslocamento global de tropas que trouxe soldados das colônias para as trincheiras europeias serviu como o vetor perfeito para a propagação do vírus. Quando os sobreviventes retornaram para casa, levaram consigo o mal que se espalharia pelos confins da Terra.
Recentemente, fomos seduzidos por uma falsa sensação de segurança. O historiador Yuval Noah Harari sugeriu que a modernidade havia, finalmente, domado esses três espectros através da medicina avançada e da estabilidade diplomática. Contudo, o século XXI encarregou-se de demolir essa percepção intelectual. O conflito entre Rússia e Ucrânia desestabilizou o mercado de energia e insumos, ferindo o combate à insegurança alimentar, enquanto a pandemia de Covid-19 lembrou ao mundo nossa fragilidade biológica, ceifando centenas de milhar de vidas, mais de setecentas mil delas apenas em território brasileiro."
Agora, o horizonte volta a escurecer com a escalada das tensões envolvendo potências no Oriente Médio. O receio não é apenas diplomático, mas pragmaticamente econômico. O Estreito de Ormuz, por onde flui cerca de 20% dos combustíveis fósseis do planeta, torna-se o novo epicentro de uma crise global. Quando bombas explodem naquela região, o estilhaço chega aos postos de combustível e, consequentemente, ao preço do prato de comida do cidadão comum. O ciclo fecha-se novamente diante de nossos olhos.
Recuperar a memória de nossos antepassados não é apenas um exercício de nostalgia; é um chamado à humildade. Descobrimos que a tecnologia com todos os seus satélites e algoritmos não serve de escudo contra a barbárie. Diante de uma realidade que não cabe em planilhas, resta-nos reconhecer a gravidade do momento. Que o antigo clamor deixe de ser apenas uma prece de fim de noite e passe a ser um alerta urgente à consciência das nações.
O pedido continua o mesmo, com um adendo necessário: Senhor, livrai-nos da peste, da fome e da guerra. E, se não for pedir demais, dai um pouco de juízo aos homens que transformaram o conflito em modelo de negócio e o poder político em um tabuleiro de xadrez onde os peões somos todos nós. Se o juízo não vier, que venha ao menos a consciência de que o mundo é um só e o estoque de paciência divina parece estar chegando ao fim, nos aproximando do assustador fim previsto Apocalipse.
Daniel Pereira. advogado e ex-governador de Rondônia.