O cinema perdeu há 46 anos um de seus maiores nomes. Alfred Hitchcock morreu em 29 de abril de 1980, aos 80 anos, sem nunca ter recebido o Oscar de Melhor Direção, apesar de cinco indicações. Dos mais de 50 filmes que dirigiu, pelo menos 20 são considerados obras-primas. A ausência da estatueta é vista como uma das grandes injustiças da Academia, que também ignorou Orson Welles e Charles Chaplin na categoria.
Hitchcock começou cedo no cinema inglês, escrevendo legendas para filmes mudos. Passou por todos os setores de uma produção até se tornar diretor. Essa vivência o transformou em uma marca. Seu estilo — o chamado “hitchcockiano” — virou adjetivo no dicionário: suspense psicológico, reviravoltas e tensão construída nos detalhes.
Entre seus filmes mais conhecidos estão "Psicose" (1960), "Os Pássaros" (1963), "Um Corpo que Cai" (1958), "Janela Indiscreta" (1954), "Frenesi", (1972), "O Homem Errado" (1956), "Disque M para Matar" (1954), "Pacto Sinistro" (1951) e "Intriga Internacional" (1959).
Sua filmografia soma 53 longas, divididos entre a fase inglesa e a norte-americana, iniciada com "Rebecca, a Mulher Inesquecível" (1940), único de seus filmes a ganhar o Oscar de Melhor Filme. O preferido do diretor era "A Sombra de uma Dúvida" (1943).
Trabalhar com Hitchcock era status em Hollywood. Ele dirigiu James Stewart, Cary Grant, Grace Kelly, Kim Novak, Doris Day, Sean Connery, Tippi Hedren, Janet Leigh, Paul Newman, Henry Fonda e Vera Miles, entre outros. A lista de astros que repetiram parcerias com o diretor é extensa.
Na TV, comandou "Alfred Hitchcock Presents" entre 1955 e 1965, levando o suspense para milhões de lares. Famoso também pelas aparições rápidas em seus próprios filmes, sempre no início das tramas para não desviar a atenção do público. A “caça ao Hitchcock” virou ritual entre os fãs.
Hoje, quase toda sua obra está disponível em DVD e Blu-ray, com material extra. Sobre ele, o livro mais importante é "Hitchcock/Truffaut". A obra nasceu de 50 horas de entrevistas concedidas ao cineasta francês François Truffaut em 1962, na Universal. Lançado em 1966, o livro destrincha cada filme de Hitchcock em ordem cronológica, de "The Pleasure Garden" (1925) a "Marnie" (1964). A edição definitiva, de 1983, inclui um capítulo final sobre "Trama Macabra" (1976), seu último longa.
Com mais de 400 fotos e storyboards, "Hitchcock/Truffaut" virou manual de direção. Martin Scorsese, Steven Spielberg, David Fincher e Christopher Nolan citam o livro como influência. Em 2015, virou documentário dirigido por Kent Jones. Hitchcock dizia que foi a melhor homenagem que recebeu. Truffaut, que foi seu melhor trabalho.
Duas fases, uma marca
Nascido em 13 de agosto de 1899 em Leytonstone, Londres, Sir Alfred Joseph Hitchcock começou no cinema mudo inglês. Seu primeiro sucesso foi "O Inquilino" (1927). Consolidou o estilo com "Os 39 Degraus" (1935) e "A Dama Oculta" (1938). Já era chamado de “Mestre do Suspense” no Reino Unido.
Em 1940, o produtor David O. Selznick o levou para Hollywood. Nos EUA, viveu sua fase clássica entre 1950 e 1960, com controle total sobre os filmes e contratos com Paramount e Universal. Recebeu o Oscar Honorário em 1968 pelo conjunto da obra.
Casado com Alma Reville desde 1926, teve nela sua principal colaboradora. Os dois tiveram uma filha, Patricia Hitchcock, que atuou em "Pacto Sinistro" e "A Sombra de uma Dúvida". O diretor morreu em Los Angeles e fez participações em 39 de seus 52 filmes sonoros.
Nunca levou o Oscar de Direção, mas redefiniu o thriller. Influenciou de Brian De Palma a Christopher Nolan. O fio condutor de sua obra: o homem comum em situação absurda, a culpa, o voyeurismo, as loiras em perigo e a plateia como cúmplice. Hitchcock não mostrava a violência. Mostrava a espera por ela.