O retrato da era Sérgio Cabral Filho em três livros-reportagem - por Humberto Oliveira

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"A Farra dos Guardanapos: O Último Baile da Era Cabral" (A História que Não Foi Contada), de Silvio Barsetti; "Se Não Fosse o Cabral: A Máfia que Destruiu o Rio e Assalta o País", de Hudson Corrêa; e "Sérgio Cabral, o Homem que Queria Ser Rei", de Tom Cardoso, são obras investigativas que mergulharam fundo no mar de lama das falcatruas, corrupção, desvios de dinheiro público, conluio com empreiteiras e muito mais, com a participação efetiva do ex-governador Sérgio Cabral Filho e sua sanha por poder absoluto.
 
Barsetti, Cardoso e Corrêa trazem à tona histórias estarrecedoras envolvendo Cabral, um político carismático que, desde a juventude, se mostrou um líder nato, mas, ao mesmo tempo, um manipulador capaz de arregimentar aliados, em sua maioria empresários e políticos sempre em busca das melhores e mais lucrativas negociatas.
 
Cabral enriqueceu ilicitamente e seus comparsas também. Ele passou a se achar o todo-poderoso, inatingível, cuja ambição sem limites o cegou. O resultado é que acabou julgado, condenado e preso. Ou melhor, esteve.
 
As três obras destrincham diferentes ângulos da ascensão e queda de Sérgio Cabral Filho e do esquema que levou o Rio à falência.
 
 
"A Farra dos Guardanapos" foca no episódio de setembro de 2009 em Paris. Com relatos exclusivos de quem esteve na mansão da Champs-Élysées, o livro reconstitui a noite de ostentação em que aliados de Cabral, com guardanapos na cabeça, celebravam o saque ao estado. É o recorte pontual que virou imagem da era Cabral: luxo, deboche e impunidade.
 
A reportagem de Corrêa expande o olhar em "Sérgio Cabral: A Vida de Rei". Da militância estudantil ao governo do RJ, mostra como Cabral construiu um esquema inédito de propina adiantada, com mesadas de R$ 500 mil.
 
Detalha a vida extravagante: joias pagas em dinheiro, helicóptero oficial para fins pessoais e o desejo de viver como rei ao lado de Adriana Ancelmo, a "Riqueza". Termina com a prisão pela Lava Jato em 2016 e os mais de 180 anos de pena. É a trajetória completa do "garoto de Copacabana" que queria a Presidência e acabou na cadeia.
 
Já "Se Não Fosse o Cabral: A Máfia que Destruiu o Rio e Assalta o País" tira o foco só de Cabral para mostrar a engrenagem. O livro traça o retrato de uma geração de políticos cúmplices num dos maiores esquemas de corrupção do país.
 
 
A tese é que Cabral foi produto e símbolo de um Brasil marcado por fisiologismo, tráfico de influência e promiscuidade entre público e privado.
 
Os autores, com propriedade e imparcialidade, mostram a ganância, soberba e corrupção sistêmica sem precedentes do ex-governador. Barsetti dá o close no escândalo-símbolo, Corrêa faz a biografia do personagem, e o terceiro livro expõe a máfia política que o sustentou.
 
Sérgio Cabral foi condenado em 23 processos no âmbito da Lava Jato, com penas que somam mais de 425 anos de prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
 
Depois de seis anos preso preventivamente, Cabral passou a cumprir prisão domiciliar em dezembro de 2022 por decisão do STF. Em março de 2024, o ministro Dias Toffoli anulou todas as condenações de Cabral na 13ª Vara Federal de Curitiba, alegando suspeição do ex-juiz Sergio Moro. Com isso, ele passou a responder em liberdade.
 
Em 2023, Cabral fechou acordo de delação premiada com a Polícia Federal, homologado pelo STF. Ele devolveu R$ 380 milhões aos cofres públicos entre bens e valores bloqueados.
 
 
Está inelegível até 2034 por condenação do TRE-RJ na Lei da Ficha Limpa. Filiou-se ao MDB novamente em 2024, mas não pode disputar eleições. Também com esse histórico de "honestidade acima de qualquer suspeita".
 
Cada um dos títulos traz detalhes dos esquemas, da farra e da corrupção comandada por Sérgio Cabral Filho — uma vergonha para o país, para o Rio de Janeiro, para sua família, para o povo que nele acreditou e votou.
 
E o pior: uma vergonha por ser filho do jornalista, escritor e pesquisador da música brasileira Sérgio Cabral, um nome importante da cultura nacional exposto ao vexame de ver que a ética, a honestidade e a honra ensinadas ao seu primogênito foram em vão. Sérgio Cabral pai faleceu em 14 de julho de 2024, aos 87 anos, no Rio de Janeiro.
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