AGRONEGÓCIO: Galinha que acompanha pato... - Por Daniel Pereira

Receba todas as notícias gratuitamente no WhatsApp do Rondoniaovivo.com.​

  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
0 pessoas reagiram a isso.
Há uma antiga sabedoria popular que ensina: galinha que acompanha pato morre afogada. A lógica é cristalina, mas a galinha — bicho sabidamente sem vocação para a natação — insiste em achar que, porque o pato tem penas, os dois jogam no mesmo time.
 
 
No grande teatro do agronegócio brasileiro, o pequeno produtor é essa galinha. Encantado com o barulho da marola, acha que é um mega-investidor só porque também pisa na lama. Esquece que, enquanto o pato flutua com a bolsa de commodities, a galinha mal consegue manter o bico fora d’água.
 
 
O fenômeno não é de hoje. Vem desde a chamada "Revolução Verde" nos anos setenta — que de verde só tinha a cor das notas que engoliram as pequenas propriedades. Eu vi isso acontecer em Luiziânia, no interior do Paraná, onde nasci. Ali ficava o "Bairro dos Inácios", em homenagem ao meu avô e seus filhos. Éramos dezenas de famílias. Ano passado voltei lá. Sobrou um vaqueiro solitário cuidando de uma imensidão que agora pertence a um único dono. Os Inácios? Espalharam-se pelo mapa. A maioria veio  parar em Rondônia.
 
 
Em 1978, já em terras rondonienses, o INCRA entregou cem hectares para meu pai e mais trinta e nove vizinhos que hoje fica no município de Pimenteira D’Oeste. Dos quarenta originais, restam três ou quatro. O resto virou poeira ao vento, disperso por Cujubim, Buritis, Juína ou Apuí. Em Corumbiaria, ajudei em 1985 a assentar mais de quinhentas famílias no Projeto Vitória da União. Quarenta anos depois, conta-se no dedo uma meia dúzia de resistentes.
 
 
Não se trata de criticar o agro. Rondônia vive da soja, do milho e do boi. O problema é a ilusão de ótica: a estrutura do setor não foi feita para o pequeno. A terra vai passando do fraco para o forte, e do forte para o mais forte ainda, numa ciranda implacável. O sistema é tão curioso que fez de Rondônia — um estado colonizado por quem buscava a roça — um lugar onde mais de noventa por cento das pessoas hoje vivem na cidade. Cerejeiras já teve mais de vinte mil habitantes e cinquenta escolas rurais. Hoje não tem nenhuma escola no campo; foi mais barato botar os poucos meninos restantes no ônibus para a cidade.
 
 
A política se aproxima e o discurso do grande latifundiário continua seduzindo o sujeito que mal tem dez alqueires. Ao votar, o pequeno produtor deveria olhar menos para a televisão ou as notícias que chegam pelo whattsapp e mais para o vizinho da frente. Aquele arroubo entusiasmado do vizinho maior pode não ser comunhão de ideias — pode ser apenas a vontade incontida de comprar a sua terra a preço de banana quando a próxima crise  chegar.
 
 
DANIEL PEREIRA. um boia-fria paranaense na infância   que virou governador de Rondônia (2018).
Direito ao esquecimento

MAIS COLUNAS

Por Editoria

CLASSIFICADOS veja mais

EMPREGOS

PUBLICAÇÕES LEGAIS

DESTAQUES EMPRESARIAIS

EVENTOS

Instale o app do Rondoniaovivo.com Acesse mais rápido o site