A confusão vergonhosa criada ontem durante a votação de requerimentos na CPMI do INSS não foi apenas mais um bate-boca parlamentar. Foi algo maior. Ou mais grave.
Fraude ou trapalhada?
A sessão tratava, inclusive, da quebra de sigilo fiscal e bancário de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O resultado foi proclamado como vitória da oposição. Mas as imagens que circularam depois contam outra história: visualmente, o número de parlamentares contrários parecia superior ao dos favoráveis.
Quando o vídeo desmente o microfone, o problema deixa de ser político e passa a ser institucional.
As imagens contra a ata
A presidência da comissão anunciou a aprovação dos requerimentos. Governistas reagiram imediatamente. Vídeos mostram contagem diferente. Fala-se em maioria contrária.
Se as imagens refletem a realidade, o resultado proclamado não corresponde ao que ocorreu em plenário.
E aí surgem duas hipóteses: erro grosseiro na condução; ou algo ainda mais sério. Nenhuma das duas é confortável para o Congresso.
O que está em jogo
Não se trata apenas do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se da credibilidade do processo legislativo.
Uma votação simbólica exige transparência absoluta. Quando há dúvida visível, o correto seria refazer a votação. Simples assim.
Mas preferiu-se proclamar o resultado sob gritos, empurra-empurra e agressão física.
O espetáculo foi constrangedor.
Sigilo já foi quebrado
Há um detalhe que torna o episódio ainda mais político do que jurídico.
A quebra de sigilo de Lulinha já havia sido autorizada anteriormente no âmbito da investigação conduzida pela Polícia Federal, com aval do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Ou seja: o acesso aos dados financeiros já estava permitido no processo judicial.
Nesse contexto, a quebra aprovada (ou proclamada como aprovada) pela CPMI passa a ter outro peso. Mais simbólico do que investigativo. Mais político do que técnico.
Mesmo na hipótese de que nada exista contra Lulinha, o simples ato de colocar o nome do filho do presidente sob nova votação pública produz desgaste. Manchete. Narrativa. Pressão.
A transparência involuntária
Se houve fraude ou apenas trapalhada, as instâncias internas do Congresso terão de decidir. Há pedidos de anulação e representações protocoladas.
Mas, independentemente do desfecho regimental, o episódio serviu para algo revelador.
A confusão acabou funcionando como uma espécie de transparência involuntária. Mostrou, diante das câmeras, o comportamento real de alguns parlamentares quando a disputa política ultrapassa o limite da institucionalidade.
Gritos substituindo argumentos. Pressa substituindo prudência. Força substituindo voto claro.
E agora?
Agora o caso sai do campo da retórica e entra no da responsabilidade. Se houve erro, que se corrija. Se houve abuso, que se apure. Se houve manipulação, que se esclareça. O que não pode é a democracia virar um jogo de versão contra vídeo.
Porque quando a dúvida paira sobre a contagem dos votos, não é governo nem oposição que perde. É o Parlamento. E isso, definitivamente, não é simbólico.
“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”