Assisti “O Diabo do Bar da Esquina”, um curta-metragem produzido em Rondônia, que foi lançado recentemente em Porto Velho, no início de fevereiro deste ano, e que já se encontra disponível no YouTube. O filme é um trabalho de tour de force do humorista Geanderson Mosini, que escreveu o roteiro e o codirigiu com Thiago Oliveira.
Como o título já deixa anunciado, ele tem inspiração na famosa lenda do "Diabo" em Porto Velho, que reúne uma série de histórias que envolvem o sobrenatural, por estar associada a aparições em festas ou casas de eventos, tornando-se uma das melhores narrativas urbanas que povoam o imaginário porto-velhense, adicionada ao folclore amazônico, no filme ganha uma conotação urgente e engraçada.
Gosto da forma como o humorista Geanderson lida com essa premissa, criando uma dinâmica na abordagem dos costumes da Capital e das empresas envolvidas no enredo, que são citadas na abertura dos créditos, como a refrigerantes Dydyo, CCAA, Urbano e Nova Era, e ele cria situações que as envolvem em diálogos rápidos, com citações, uso de serviços, no caso da Urbano Norte, ou do espaço, local onde ocorre determinada cena.
Mas é a relação do ator e humorista com os amigos, “parças”, e a história que conduz a narrativa: no caso, um rapaz que mora com a avó, uma senhora despojada, e que acredita que sua mãe desaparecida foi levada pelo diabo. Ele resolve, então, com mais dois amigos, entrar numa jornada de busca pelo “tinhoso” em alguma balada. Busca ajuda religiosa de um padre fitness, só assistindo para entender, e recebe como arma um punhal santificado, adquirido em uma loja chinesa, e uma água benta engarrafada.
Nesse contexto quase satírico, o filme proporciona mostrar lendas, como a do boto que vira homem bonito de branco, mas também dá vida a uma visão regional de como as pessoas se relacionam e promove críticas sociais em rápidas gags de adesão visual, como a do pastor discutindo com o dono de uma casa de forró, em um bairro periférico, por causa da música e do movimento de pessoas no local.
E colocar boates de referência da noite de Porto Velho e personagens urbanos na trilha da busca do protagonista por seu antagonista, o Diabo, adiciona um tempero de identificação quase imediato para quem viveu esse safári de diversão.
É uma comédia de efeito imediato, mas que tem algumas surpresas para quem mora em Porto Velho. Eu achei genial colocar a modelo e influencer Myrla Pinheiro em um papel santo específico, que entra em cena para combater o mal de uma maneira “Mortal Kombat”, não sei se era essa a intenção, mas ficou muito boa.
Uma breve história da Myrla no início de sua carreira de estrela na Capital rondoniense.
Em uma de suas primeiras aparições em público, Myrla fez parte de um seleto time de modelos que desfilou de lingerie em plena avenida, numa passarela montada na Avenida Carlos Gomes, em frente à galeria de lojas do Castelo, onde havia uma loja de venda de roupas íntimas femininas. A sacada de quem promoveu esse desfile foi montar essa ação de moda no trajeto da Cavalgada da Expovel, quando dezenas de carros, SUVs e até carretas que passavam em frente à passarela pararam para acompanhar o espetáculo. Resumo: houve um congestionamento monstruoso nesse ponto do trajeto; as mulheres, enciumadas, tentavam jogar bebidas nas modelos, enquanto os namorados aplaudiam ou urravam.
A Myrla criou uma trajetória de modelo e influencer de sucesso, na qual seu corpo sempre se sobressaiu. Assistir à sua participação no filme é um achado de ouro.
“O Diabo do Bar da Esquina” não tem maiores pretensões de criar um filme de consciência dramática ou social, porém proporciona diversão com o respaldo de trazer casos que já estão na história oral do povo, com elementos do sobrenatural e do folclore nativo, dando uma visão leve sem ser desrespeitosa; pelo contrário, o humor tem um tempero quase circense.
A participação e o uso da música do artista paraense Wanderley Andrade são um respiro de inteligência e dão respaldo ao apelo humorístico, bem equilibrado entre a ideia do roteiro, a atuação do elenco e a execução.
O filme foi contemplado no Edital 001/2024/Sejucel/Siec, Lei Paulo Gustavo, da Federação de Desenvolvimento Cultural de Rondônia, da Sejucel, do Governo de Rondônia e do Ministério da Cultura.