O filme “Blow Up - Depois daquele beijo” (Blow Up/1966), uma das obras-primas do diretor italiano Michelangelo Antonioni, está fazendo 60 anos de seu lançamento e, pra mim, e muitos, talvez seja o filme datado mais delicioso de se assistir. Datado por quê? Porque ele faz um registro de uma época da efervescência do período dos anos 60, em que a psicodelia importada dos EUA transformaria o comportamento das pessoas no Reino Unido, o que basicamente se chamou de “Swinging London” com a evocação da juventude, das drogas e das bandas de rock britânicas em ascensão no cenário musical.
A história de “Blow Up” se passa em Londres, Inglaterra, mostrando hábitos, comportamentos extra-vagantes ou apenas as ações sensoriais de um tempo em que quase tudo era válido o que pode incluir até um crime, um assassinato em um parque.
Esse é o primeiro filme em língua inglesa do diretor Antonioni e que marcou o seu primeiro trabalho para os estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), com produção do todo-poderoso Carlo Ponti. E foi um sucesso estrondoso em vista do seu orçamento um custo de US$ 1,8 milhão de dólares e um faturamento mundial de US$ 20 milhões. E é uma produção notável por diversos fatores, sem se ater a um gênero específico pode ser um drama, um suspense ou apenas um filme de comportamento.
Baseado num conto curto do escritor Julio Cortázar intitulado “Las babas del diablo”, de 1959 , foi roteirizado por Antonioni e seu colaborador habitual da fase italiana, Tonino Guerra. O interessante da história é que mostra o envolvimento acidental de um fotógrafo de moda com um crime que ocorre num parque, onde ele foi tirar fotos de paisagem. Porém, percebe um casal ao longe se beijando e resolve tirar uma sequência de fotos que depois vão lhe dar uma grande dor de cabeça.
Tendo como ator principal o inglês David Hemmings, no papel do fotógrafo, o elenco tem ainda a atriz Vanessa Redgrave (no auge da beleza), além de Sarah Miles e a notável Jane Birkin que se des-tacou por ter feito a primeira cena de nu frontal em um filme britânico. A participação da maior mode-lo da época, Veruschka, interpretando ela mesma, logo no início do filme, em uma conturbada sessão de fotos em estúdio, também tem seu charme na produção.
Premiado no Festival de Cinema de Cannes com o Grand Prix, um dos melhores destaques é a trilha sonora que permeia algumas cenas importantes do filme, sob a batuta de Herbie Hancock, jazzista que dá uma sofisticação notável à obra. Outro ponto é a participação especial e muito importante da banda Yardbirds, simplesmente o grupo que revelou para o mundo músicos geniais como Jimmy Page (que depois fundaria a banda Led Zeppelin) e Jeff Beck (guitarrista fenomenal que se transformaria num dos grandes músicos do século 20).
A história básica de “Blow Up”, e que é muito boa, é que toda a ação ocorre num processo de pouco mais de 24 horas na vida do fotógrafo londrino Thomas (Hemmings), que está produzindo um livro de artes e fotos do cotidiano da vida proletária dos trabalhadores, enquanto trabalha em seu estúdio com modelos e fotos para revistas de moda, tornando-o uma subcelebridade no meio e bastante procu-rado pelas modelos.
Após tirar fotos de um casal em um parque, a mulher das fotos, Jane (Redgrave, belíssima), consegue localizar seu estúdio para solicitar que ele lhe entregue os negativos, pois ela não autorizou as fotos tiradas no parque e isso pode lhe dar um grande problema. Curioso, Thomas engana a mulher e lhe passa um rolo de filme trocado. Logo depois que consegue despistá-la, vai revelar o filme verdadeiro.
Essa sequência de revelação das fotos é um ponto-chave de referência cinematográfica espetacular. Pois, na medida em que Thomas vai revelando as fotos e frames, ele amplia o detalhe do casal junto à parte dos arbustos do parque e percebe um revólver quase camuflado em meio às folhagens, apontan-do para alguém. Depois, em outra sequência de ampliação das fotos, percebe um corpo próximo a um grande arbusto; porém, devido à distância do ponto onde fez o registro, não há nitidez suficiente, mas ele sabe que aconteceu um assassinato no local.
Intrigado, ele sai do estúdio e volta ao parque, no ponto onde acha que estava o corpo. Para sua sur-presa, realmente há um homem morto caído. Surpreso, ele fica em dúvida sobre o que fazer. Quando volta ao seu apartamento, descobre que as fotos reveladas e os negativos foram todos roubados, res-tando somente uma foto desfocada do corpo no arbusto. Perdido, ele resolve ir atrás de seu agente para relatar o que registrou. Acaba parando num show de rock psicodélico, onde ocorre uma pequena confusão. Depois ele foge e vai parar numa festa regada a maconha e heroína com a elite jovem da sociedade.
No amanhecer do dia, ainda sem entender o crime que quase testemunhou e registrou, acaba deixando de lado e vai parar numa quadra de tênis que fica no próprio parque, onde um grupo de jovens mími-cos simula uma partida de tênis imaginária.
Na época de seu lançamento, devido às ousadias do diretor em mostrar cenas de nudez e consumo de drogas, a produtora MGM, que distribuiu o filme nos Estados Unidos, acabou tendo que exibi-lo nas salas de cinema com limite de idade, pois a MPAA (Motion Picture Association of America), que re-gula o conteúdo, apontou que “Blow Up” não seguia os novos acordos morais de entretenimento “familiar”.
O filme foi um grande sucesso de crítica na época e se tornou um clássico de referência para diretores importantes. O diretor Ingmar Bergman o considerou um dos filmes mais importantes da história do cinema, chamando-o de obra-prima. Já o cineasta Brian De Palma o homenageou no clássico de sus-pense “Blow Out - Um tiro na noite” (1981).
O diretor Francis Ford Coppola recentemente disse em entrevista que “Blow Up” foi sua grande ins-piração para o ótimo “A Conversação” (1974), filme notável no uso do recurso de som para sustentar uma história de suspense.
O filme “Blow Up - Depois daquele beijo” está disponível em uma cópia excelente e com legendas em português no YouTube. Assista: é um dos melhores filmes dos anos 60 e o retrato de uma época considerada perdida. Notável.