O livro "Rota 66 - A História da Polícia que Mata", do jornalista Caco Barcellos, publicado em 1992, é um dos grandes marcos do jornalismo investigativo brasileiro e expôs a letalidade policial em São Paulo sob o comando da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) entre as décadas de 1970 e 1990. A obra revelou que 65% dos mortos pela Rota eram pessoas inocentes — geralmente moradores da periferia paulista —, detalhando um padrão de execução de jovens trabalhadores, negros e pobres.
A importância desse livro é seminal para quem quer entender não só o contexto da “polícia que mata” — sem generalizar, obviamente —, mas retrata muito bem a herança de como operavam agentes em plena ditadura militar no combate à guerrilha, como um legado de tempos sombrios aplicados na segurança pública urbana.
Para ter uma ideia, o jornalista Caco conseguiu montar uma estatística de terror durante a apuração e checagem para fazer o livro, que teve como principal inspiração a execução de três jovens rapazes de classe média (Francisco, José Augusto e Carlos) em 1975, que foram confundidos com assaltantes e executados à bala pelos policiais.
Na sua pesquisa, Caco registrou a cobertura de 3.846 mortes, revelando que a maioria das vítimas era de baixa renda, geralmente operários (20%) e que residiam em áreas periféricas. O seu levantamento indicou ainda que 51% das vítimas identificadas eram negras ou pardas, quando, segundo dados do IBGE, em São Paulo essa população representava apenas 22%.
Resumo: é um livro extraordinário, praticamente não só uma extensa reportagem, mas um estudo sociológico absurdo.
Diante disso, “Rota 66” ganhou o prêmio Jabuti no ano de seu lançamento e foi reeditado inúmeras vezes, tornando-se uma obra de referência nas faculdades de comunicação social.
Com tanto sucesso, era óbvio que iria ganhar uma adaptação para a TV, no caso pela Globoplay, que fez uma série com o mesmo título, baseada no texto de Caco.
ADAPTAÇÃO E CURIOSIDADES
E, enfim, assisti à série "Rota 66 - A Polícia que Mata" (o título é esse mesmo na adaptação), baseada no livro, que é uma obra-prima em narrativa jornalística, com uma profunda pesquisa de campo de Caco, que esteve em necrotérios, no Instituto Médico Legal e até em campo, acompanhando velórios de familiares de jovens mortos (executados pela polícia), para destrinchar a verdade sobre os confrontos, onde o modus operandi nos boletins de ocorrência da polícia era que os jovens atiravam primeiro e os policiais, para se defender da "injusta" agressão, atiravam — geralmente com tiros na nuca ou pelas costas — e os jovens eram executados.
Pois é, o livro é um primor, com fatos narrados como uma crônica de horror e violência, sempre pautando a observação do jornalista em apurar os fatos.
Porém, a série de televisão produzida pela Globoplay em parceria com a produtora Boutique Filmes, lançada em 22 de setembro de 2022 no streaming, é uma decepção em narrativa visual, contexto dramático e mais parece um folhetim novelesco sem as nuances narrativas da obra-base. Fica tudo limitado num corre-corre do personagem Caco Barcelos (interpretado pelo ator Humberto Carrão) nos locais onde ele suspeita que houve abuso da polícia, mas sem ficar clara a efetividade da sua apuração dos fatos que foi verificar.
É tão absurdo que as anotações do jornalista da série são rabiscos com palavras-chave como "tiros", "polícia", "executados" e são mostradas no vídeo como um relicário da sua apuração. Besteira. Ruim.
Os fatos narrativos dos jovens da classe média alta paulista que foram mortos pela Rota num Fusca azul, após uma longa perseguição e que dá nome à obra, resumem-se a uma sequência muito mal feita, com a câmera fechada, os policiais perseguindo e depois os tiros.
No texto da obra, toda essa sequência é feita de detalhes que mostram desde a série de erros da polícia ao identificar mal o veículo até a motivação que levou os jovens do Fusca a serem perseguidos, com uma perseguição de tirar o fôlego, incluindo as consequências que envolvem testemunhas e a família. A narrativa é sufocante.
Lamentável que a história do trabalhador que chamava o filho de "Reloginho" tenha ficado relegada a um conflito da mãe com o filho pequeno após a perda do pai, morto por engano pela polícia quando voltava do trabalho.
Mas fiquei muito sentido em ver que o retrato que fizeram do Caco Barcelos é de um jornalista íntegro e ingênuo demais, pai solteiro — ele tem um filho bebê que vive encostando na vizinha ou numa colega fotógrafa para cuidar enquanto ele investiga as mortes provocadas pelos policiais da Rota.
São episódios curtos, tecnicamente bem feitos (fotografia, iluminação e desenho de produção — interessante ver como era uma redação de jornal nos anos 70, sem computadores), mas o roteiro é capenga, falta foco de suspense e maior carga dramática, principalmente nos casos gritantes e absurdos das ações dos policiais da Rota.
No livro, o Caco criou uma lista com os maiores matadores da Rota. E ele justifica parcialmente as ações violentas dos policiais como herança e treinamento do período da ditadura militar na caça de guerrilheiros, o que fazia com que fosse dada autonomia aos policiais para promover o extermínio étnico de jovens negros (principalmente) da periferia paulista.
Livraço. Quem não leu ainda recomendo que procure.
Já a série, para mim, uma grande decepção.