CHERNOBYL: Minissérie expõe o horror do maior acidente nuclear da história - Por Marcos Souza

No próximo dia 26 de abril, o acidente nuclear de Chernobyl completa 40 anos

CHERNOBYL: Minissérie expõe o horror do maior acidente nuclear da história - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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Talvez aquela que seja a maior série da história da HBO, “Game of Thrones”, encerrou oficialmente no dia 19 de maio de 2019, com o episódio intitulado “O Trono de Ferro”, marcando praticamente o fim de uma era nos serviços de streaming e canais pagos. Mesmo que tenha sido a pior temporada, com decisões polêmicas que contrariaram muitos fãs, a série deixaria uma lacuna gigante na programação da HBO naquele período.
 
No entanto, uma semana antes, no dia 6 de maio de 2019, uma segunda-feira, a HBO exibiu o primeiro de cinco episódios da minissérie “Chernobyl”, criação do produtor e showrunner Craig Mazin (que depois seria responsável por adaptar o game “The Last of Us” como série), que iria mostrar com detalhes os eventos que causaram o maior acidente nuclear da história, ocorrido em 1986 na Ucrânia — que ainda fazia parte da antiga União Soviética.
 
Lembrando que, no próximo dia 26 de abril, o acidente nuclear de Chernobyl completa 40 anos.
 
O primeiro episódio, “Chernobyl”, já causou um grande choque em quem assistiu, pelos detalhes de produção — espetaculares — que reproduziam com esmero a usina de Chernobyl, a sala de comando, corredores e compartimentos que integravam o complexo.
 
Desde o início, Mazin, que escreveu todos os episódios e supervisionou a obra, constrói a narrativa em cima de uma série de absurdos sobre a causa do acidente: a explosão — negada inicialmente pelos diretores e pelo engenheiro nuclear responsável — e, depois, a tentativa de minimizar o ocorrido, fazendo com que um batalhão de bombeiros instalado na cidade vizinha à usina, Pripyat, localizada a 4 quilômetros de onde ocorreu a explosão, fosse enviado para apagar o incêndio sem saber que estavam sendo expostos a uma carga de radiação alta e letal.
 
Para suprir a audiência espetacular de “Game of Thrones”, a HBO conseguiu trazer outro programa superproduzido, muito bem escrito — todos os episódios foram dirigidos por Johan Renck —, como se fosse um grande filme de cinco horas de duração dividido em capítulos. Isso se dá pelo nível de sequências de grande impacto e efeito dramático, com base em um suspense latente pela investigação do acidente; nas medidas extremas para evitar que a radiação se espalhasse e afetasse parte da Europa Oriental; e na crise política e internacional que estava sendo travada nos bastidores do alto poder soviético, na época sob o comando de Mikhail Gorbachev, que ocupava o cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética entre 1985 e 1991.
 
 
Um dos grandes achados da minissérie é o foco em personagens humanizados, figuras reais que tiveram participação ativa na crise do acidente nuclear, com um elenco excepcional. O cientista Valery Legasov (o ótimo Jared Harris) recebe um relatório de um acidente ocorrido em Chernobyl, minimizado pelos diretores da usina, que temiam o alto comando soviético. Porém, com seu conhecimento, ao participar de uma reunião com Gorbachev e importantes autoridades — entre elas o vice-presidente do Conselho de Ministros, Boris Shcherbina (vivido pelo extraordinário Stellan Skarsgård) —, acaba apontando incongruências que podem indicar que o acidente atingiu um patamar muito acima do normal, com potencial para ser um desastre.
 
Confrontado por Shcherbina, que não acredita que o acidente seja tão perigoso, os dois se deslocam até a usina de helicóptero. Quando chegam, percebem que algo estranho ocorreu em um dos reatores, o de número 4, que explodiu. A partir dessa imagem chocante, resolvem investigar com mais detalhes se estão diante de um terrível acidente nuclear que parece estar sendo acobertado pelos diretores do local ou se é algo mínimo, que deve permanecer sem alarde.
 
A verdade se mostra mais dura quando um membro do exército, sob as ordens de Shcherbina, utiliza um dosímetro — um contador Geiger-Müller de alta potência — e, ao se aproximar do reator 4, descobre que o nível de radiação, considerado “fora de escala”, estava em 20.000 roentgens por hora (R/h). Para se ter uma ideia, o nível considerado seguro para humanos ou animais é de 1 mSv (milisievert) por ano, e para quem trabalha com esse tipo de exposição o limite é de no máximo 20 mSv por ano.
 
Ou seja, o impacto de receber uma alta dosagem de radiação na área central da explosão e arredores é mortal. Quando esse dado é revelado, finalmente é feito o alerta vermelho para contaminação e a crise nuclear se instala.
 
Um dos pontos mais dramáticos expostos pela minissérie é o foco nas vítimas, como o bombeiro Vasily (vivido por Adam Nagaitis), que se torna uma das primeiras vítimas da contaminação após ter sido um dos primeiros a chegar ao local do acidente para apagar o incêndio causado pela explosão. Sua esposa, Lyudmilla (Jessie Buckley), passa por uma verdadeira via-crúcis para encontrá-lo no hospital e, depois, pela dolorosa experiência de vê-lo literalmente se deteriorar pelos efeitos da radiação, com queimaduras e feridas abertas.
 
 
Diante das providências e investigações conduzidas por Valery e Shcherbina, eles contam com a ajuda crucial de uma cientista com conhecimento em física nuclear, Ulana Khomyuk (a sempre excepcional Emily Watson), que investiga o motivo do acidente indo aos hospitais e procurando os trabalhadores da usina que estavam de plantão na data fatídica. É ela quem esmiúça os detalhes da falha que levou ao trágico desastre, trazendo revelações surpreendentes.
 
Um dos melhores episódios é o do julgamento dos diretores e funcionários que estavam na usina na noite do acidente, no qual é mostrado, de forma didática, que o ocorrido foi resultado de uma combinação de falhas de projeto no reator RBMK — que sustentava a usina — e erros de decisão do chefe de operações, que comandou um teste de segurança. 
 
Um alto pico de energia que fugiu totalmente do controle levou o reator ao superaquecimento, transformando a água de resfriamento em vapor instantaneamente. Com isso, a primeira explosão de vapor destruiu a tampa do reator; em seguida, o ar, ao entrar em contato com o grafite quente, causou uma segunda explosão, destruindo o telhado e lançando material radioativo na atmosfera.
 
Não é spoiler; o modo como esses fatores se combinam — violando uma série de protocolos de segurança, apresentados durante o julgamento — é o que torna a minissérie um verdadeiro ouro narrativo, com suspense e revelações impactantes, mostrando como a autoconfiança exagerada de alguns tornou Chernobyl uma bomba inevitável.
 
A minissérie tem uma abertura inusitada e inesperada: começa em 1988 — dois anos após o acidente —, com o cientista Valery em seu apartamento empacotando fitas cassete, nas quais narra, como um diário, cada detalhe da investigação, os resultados dos registros do acidente e o julgamento pelo qual passou. Em seguida, percebemos que ele é vigiado por agentes, mas o que vem depois — baseado em fatos reais — choca pela premissa do que nos aguarda ao longo dos cinco episódios.
 
“Chernobyl” fez grande sucesso de crítica e público (proporcionando uma audiência surpreendente). Em 2019, ganhou 10 estatuetas do Emmy — incluindo melhor minissérie, direção e roteiro — e é considerada uma das melhores adaptações já feitas pela televisão ao retratar um fato histórico. 
 
Está disponível em destaque no catálogo do serviço de streaming HBO Max.
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