Foto: Divulgação
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O documentário de longa-metragem “Os Assassinatos de Cheshire” (The Cheshire Murders/2013), que está disponível no catálogo do serviço de streaming da HBO Max, é um clássico, seguindo o formato padrão do “true crime”, ou seja, entrevistas com familiares das vítimas, com parentes dos causadores da tragédia, com advogados, policiais envolvidos no caso ou pessoas próximas dos dois lados. Porém, esse documentário é notável por acompanhar um dos mais polêmicos casos de crimes já registrados e que mudou o sistema de sentença no Estado de Connecticut para condenados à pena de morte, provocando uma discussão sistemática que resultou numa mobilização midiática e popular.
Dirigido e escrito pela dupla Kate Davis e David Heilbroner, que teve acesso a gravações de depoimentos e fartos documentos das ações que resultaram em dois julgamentos, incluindo entrevistas com a promotoria e os advogados dos réus, o trabalho é muito minucioso e feito com esmero, seja nas imagens de apoio, envolvendo as vítimas (que contam com o uso de gravações de câmeras de segurança de um mercado e de um banco), detalhando em takes e nas entrevistas a comoção provocada nos familiares das vítimas, que têm fundamental importância no que vai resultar na mobilização de toda uma comunidade revoltada.
No dia 23 de julho de 2007, dois homens entraram na casa de uma tradicional e conhecida família, os Petit, da cidade de Cheshire, em Connecticut (EUA): Steven Hayes (que depois se tornaria uma mulher trans de nome Linda Mai Lee – esse detalhe não é citado, pois a transformação viria a ser feita recentemente) e Joshua Andrew Komisarjevsky. O que era um roubo numa residência se transforma num dos mais bárbaros e odiosos crimes cometidos contra uma família.
Os dois criminosos, que possuíam uma longa ficha criminal – não é spoiler – assassinaram Jennifer Hawke-Petit e suas duas filhas, Hayley Petit, de 17 anos, e Michaela Petit, de 11 anos.

O marido de Jennifer e pai das garotas, um renomado médico da cidade, muito respeitado, Dr. William Petit, foi espancado com um taco de beisebol por Joshua, o mais novo e jovial, principalmente na cabeça. Foi deixado amarrado e em estado grave no porão da casa.
Logo no início do documentário, após cometer os crimes, ao tentar fugir, os dois homens são presos pela polícia, que já estava no local havia um tempo, de campana. Como assim?
A polícia sabia que os dois homens estavam dentro da casa barbarizando a família e preferiu aguardar o desenrolar da ação para poder efetivar a prisão?
Sim e não. Pois, logo depois de descobrir que era uma família de posses, Steven sequestrou Jennifer e a obrigou a sacar dinheiro em um banco próximo da casa. A atendente de caixa percebeu que a mulher estava muito aflita e entendeu que se tratava de um sequestro. A funcionária do banco conseguiu avisar a polícia, o que mobilizou policiais até a residência.
Depois de retornar à casa, o homem e seu parceiro deram início à barbárie – que envolve estupro, morte por estrangulamento e o incêndio com as vítimas presas e amarradas nos quartos. Sendo que quem sofreu mais foi Michaela, de 11 anos.
Ao longo dos fatos apresentados, principalmente no relato do médico sobrevivente e dos advogados de defesa dos dois homens, vamos descobrindo detalhes do que aconteceu às vítimas – o que fica ainda mais chocante a partir da exibição dos áudios dos dois trocando informações sobre o roubo e as atitudes abusivas.
Esse crime é considerado o pior já registrado em invasão de residência pela crueldade e pela forma como agiram, incendiando a casa para apagar evidências, mas amarrando as irmãs nos seus respectivos quartos enquanto agonizavam com os corpos em chamas, sendo que duas delas haviam sido estupradas.
O caso atraiu atenção notável pela proposta dos advogados de defesa, que pediram prisão perpétua sem direito à redução de penas. Porém, a promotoria recusou, pedindo pena de morte aos dois, até para atender ao clamor da família, que queria, além da justiça, uma “vingança” pela forma bruta, cruel e torpe como assassinaram uma mãe e as duas filhas.

Os diretores têm a sensibilidade de apresentar todos os lados, mostrando a vida pregressa dos assassinos, com depoimentos de seus familiares – tornando mais humana a visão que temos como espectadores –, registros de ex-namoradas, pais e outros parentes, que vão dando consistência narrativa ao dimensionar todo o caso e as consequências de mobilizar a imprensa, a igreja e autoridades sobre até onde a pena de morte é um “assassinato” institucional motivado por vingança e não o fator de decisão ao ser considerada uma pena da justiça, como resultado de um julgamento legal.
A câmara de parlamentares de Connecticut aprovou uma lei retirando a pena de morte da jurisdição do Estado, porém, diante das revelações chocantes do crime com a família Petit, da exposição da mídia e dos movimentos populares, o então governador da época vetou.
Esse fato vai trazer também o fator do luto familiar, seja do viúvo ou dos pais e irmãos de Jennifer, que proclamam em suas entrevistas a pena de morte como a punição mais justa.
Tem alguns takes do documentário em que acompanhamos um jantar entre eles; logo após a oração, durante o jantar, pregoam a pena de morte como única opção que aceitam.
Não vou revelar as decisões de julgamento, as revelações que são expostas e até o resultado das sentenças. Porém, vale citar que foram dois julgamentos separados – um em 2010 e o outro em 2011. Com Joshua contando a sua versão do crime, colocando a culpa maior em Steven, e ele destruído psicologicamente pela culpa, assumindo seu papel nos momentos mais tensos das mortes, já que foi quem ateou fogo nos quartos e em parte da casa.
O resultado desse caso vem num epígrafe narrativo ao final do documentário, esclarecendo que, no dia 11 de abril de 2012, a Câmara dos Representantes de Connecticut, o parlamento, votou pela revogação da pena capital para casos futuros, mantendo em vigor as sentenças de morte anteriores já julgadas. Três anos depois, a Suprema Corte do Estado decidiu que toda pena capital era incompatível com a constituição estadual, promulgando que as sentenças dos assassinos teriam como pena máxima a prisão perpétua.
Um ótimo documentário e chocante no aspecto narrativo quando entra nos meandros dos crimes e perpetua uma discussão interessante ao humanizar criminosos, sem ser demagogo e dar voz, principalmente, às vítimas – no caso, os parentes órfãos de seus entes queridos.
Tem um detalhe polêmico sobre a desastrosa ação da polícia na hora do crime, pois ela estava no local antes do incêndio – fora da casa. Para entender, só vendo. Tem um trecho em que um dos advogados de defesa tem acesso ao relatório da polícia e expõe de forma didática uma sequência de erros (ou despreparo?).
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