O som que incomodou um laboratório no início dos anos 2000 pode se transformar em um dos avanços mais promissores da medicina moderna.
Durante seu doutorado na Universidade de Michigan, a engenheira biomédica Zhen Xu descobriu que pulsos ultrarrápidos de ultrassom eram capazes de destruir tecido doente sem cortes, calor ou radiação.
O método, batizado de histotripsia, fragmenta tumores usando microbolhas que se expandem e colapsam em microssegundos, rompendo as células cancerígenas e permitindo que o próprio sistema imunológico elimine os resíduos.
Décadas depois, a tecnologia foi aprovada pelo FDA para tratar câncer de fígado e já mostra resultados: em um estudo recente, o procedimento teve 95% de eficácia na destruição de tumores hepáticos. No Reino Unido, o tratamento foi adotado pelo sistema público de saúde em caráter experimental.
O processo é simples e quase indolor. Guiado por um braço robótico, o transdutor direciona o ultrassom à área exata do tumor — geralmente do tamanho da ponta de uma caneta. O paciente costuma voltar para casa no mesmo dia.
Ainda há limitações. Ossos e órgãos cheios de gás, como os pulmões, bloqueiam as ondas, e os dados sobre recorrência de tumores ainda são escassos. Pesquisadores também investigam se a técnica poderia dispersar células cancerígenas, embora nenhum estudo tenha confirmado esse risco.
Mesmo assim, a histotripsia representa um novo paradigma: eliminar tumores sem bisturi, dor ou internação prolongada.
Outras linhas de pesquisa já exploram o ultrassom combinado à imunoterapia e à quimioterapia, buscando potencializar efeitos com menos toxicidade.
A medicina parece se aproximar de um ponto de virada — em que o som, antes ferramenta de diagnóstico, pode se tornar uma arma precisa contra o câncer.