A reconstrução da BR-319 entrou em uma nova fase considerada decisiva após o governo federal concluir a licitação de dois dos trechos mais críticos da rodovia, historicamente marcados por atoleiros, interrupções e isolamento durante o inverno amazônico. A retomada das obras foi reforçada na terça-feira (26), durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Amazonas, com assinatura de ordens de serviço para asfaltamento e construção de pontes estratégicas ao longo da estrada que liga Manaus a Porto Velho.
Com cerca de 885 quilômetros de extensão, a BR-319 é considerada uma das ligações rodoviárias mais estratégicas da Amazônia. Atualmente, grande parte da conexão entre Manaus e Porto Velho depende do transporte fluvial ou aéreo, já que o chamado “trecho do meio” permanece praticamente intrafegável em determinados períodos do ano.
Modelo logístico
A dependência do transporte pelos rios afeta diretamente Rondônia e Amazonas. Hoje, boa parte do abastecimento industrial da Zona Franca de Manaus, combustíveis, alimentos, medicamentos, peças industriais, eletrodomésticos, produtos eletrônicos e cargas comerciais precisa ser transportada por balsas e embarcações entre Manaus e Porto Velho. O mesmo ocorre com o escoamento de produtos agrícolas, carne bovina, soja, milho, madeira legalizada e mercadorias destinadas ao restante do país.
Esse modelo logístico aumenta custos, amplia prazos de entrega e deixa a região vulnerável a cheias, secas extremas e interrupções na navegação dos rios amazônicos. Em períodos de estiagem severa no Rio Madeira, por exemplo, comboios de balsas enfrentam limitações de calado, atrasando o abastecimento e elevando o preço de produtos essenciais.
Defensores da reconstrução afirmam que a recuperação da rodovia poderá reduzir significativamente os custos logísticos da Região Norte, acelerar o transporte de mercadorias e diminuir a dependência quase exclusiva da rota fluvial. Também argumentam que a estrada pode fortalecer o comércio regional, facilitar o acesso a serviços públicos e ampliar a integração econômica entre Amazonas, Rondônia e o restante do país.
Nova licitações concluídas
O avanço das obras ganhou força após o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) divulgar o resultado das licitações de dois lotes considerados fundamentais para a recuperação da estrada. Um dos principais contratos envolve o trecho entre os quilômetros 469,6 e 590,1, no Amazonas. A vencedora foi a Construtora ETAM Ltda, com proposta de R$ 362 milhões — cerca de 16% abaixo do orçamento inicial de R$ 430,9 milhões.
Outro trecho estratégico, entre os quilômetros 433,1 e 469,6 — conhecido justamente como “trecho do meio” — teve como vencedora a LCM Construção e Comércio S.A.. A empresa apresentou proposta de R$ 144,3 milhões, valor 31,5% inferior ao teto inicialmente estimado pelo DNIT.
Balsas de travessias substituídas por pontes
Além da recuperação do pavimento, o governo federal prevê a construção de pontes de concreto sobre os rios Curuçá, Autaz Mirim e Igapó-Açu, consideradas fundamentais para garantir trafegabilidade permanente e reduzir interrupções provocadas pelas cheias e deterioração das antigas estruturas.
A retomada da BR-319 também vem acompanhada de um amplo pacote de monitoramento ambiental. O governo pretende implantar uma área de proteção e fiscalização de aproximadamente 4,5 milhões de hectares ao longo da rodovia, com investimentos estimados em R$ 1,5 bilhão.
Questões ambientais foram ajustadas
O plano inclui bases permanentes de fiscalização, criação de unidades de conservação, sistemas de monitoramento contra desmatamento ilegal, controle fundiário e estruturas de passagem de fauna silvestre. A estratégia tenta equilibrar duas pressões históricas na Amazônia: a necessidade de integração logística e os alertas sobre riscos de avanço do desmatamento, grilagem e ocupações irregulares.
Nos bastidores do governo federal, a BR-319 é tratada como prioridade estratégica para integração nacional. Críticos da obra, porém, alertam que a pavimentação poderá acelerar pressões sobre áreas preservadas caso o sistema de fiscalização ambiental não funcione de forma permanente e efetiva.
O avanço das licitações ocorreu após decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região derrubar uma liminar que suspendia os processos relacionados à rodovia. Na decisão, a Corte entendeu que a paralisação poderia causar “dano concreto e irreversível ao interesse público”.
Quatro lotes da BR-319 já tiveram licitação concluída e os contratos devem ser homologados até o início de junho. A expectativa do governo é iniciar imediatamente as obras após assinatura definitiva das ordens de serviço, marcando um dos maiores avanços recentes da rodovia que há décadas simboliza o embate entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental na Amazônia.