No Brasil, quando fevereiro aponta na folhinha, duas coisas são fatais: o Carnaval e as enchentes destruindo patrimônios e vidas. Para os profetas do apocalipse de plantão, as águas seriam um castigo pela festa profana. Ou seja: quanto mais heresia na avenida, mais fúria divina. Uma lógica parecida com a de quem torce por raios em evento de adversário político.
A teoria até faria sentido se o dilúvio fosse seletivo e ocorresse apenas onde o Rei Momo é mais abusado. Por esse critério, Rio de Janeiro, Recife e Salvador deveriam passar o ano submersos para lavar seus pecados. Mas a realidade é menos teológica. Basta voltarmos os olhos para as terras amazônicas: Porto Velho em 2014, Rio Branco em 2015 e a nossa Pérola do Mamoré — Guajará-Mirim — em 2018.
Recentemente, a tragédia escolheu a Região Serrana do Rio. Mas gaúchos, paranaenses e catarinenses, em terras onde a bombacha nem passa perto do sambódromo, também já sofreram com chuvas impiedosas.
A natureza castiga a humanidade desde que inventamos a escrita — e provavelmente antes disso. Herculano e Pompeia que o digam, ao perecerem sob as cinzas do vulcão Vesúvio. A cultura minoica e cidades como Corinto, na Grécia, ou Pérgamo, na Turquia, sucumbiram a terremotos.
Perecer sob as forças da natureza é um traço comum aos seres humanos, independentemente de estarem sambando ou rezando. Mas os desastres do período carnavalesco brasileiro, se não podem ser totalmente evitados, poderiam ao menos ser suavizados.
Janeiro, fevereiro e março são meses de verão no Hemisfério Sul, conhecidos pela alta incidência de chuvas. Qualquer cidade no Sul ou Sudeste sabe disso há séculos. No entanto, o roteiro é sempre o mesmo: lamentamos o ocorrido, exercitamos uma solidariedade momentânea com as vítimas e fazemos quase nada para resolver o risco.
Na Amazônia, a população ocupa o leito natural de rios caudalosos. De tempo em tempo, o rio resolve fazer uma visita aos moradores, cobrando um pedágio pesado pelo uso do seu espaço. No Sudeste, além das margens, as ocupações escalam encostas íngremes sem qualquer medida de contenção. O risco é permanente; a tragédia apenas espera na fila.
Essa situação tem saída? A Coreia do Sul sugere que sim. Com um quarto da nossa população em um território que não chega a metade do estado de Rondônia, eles decidiram que ninguém mora na margem de rio nem escala montanha. Margens livres, encostas reflorestadas. A soma dessas duas providências evita o deslizamento e a enxurrada abrupta.
Estamos diante de uma situação grave que tem jeito, desde que se faça a coisa certa. Albert Einstein, que entendia de física e de bom senso, dizia que fazer as coisas sempre da mesma forma e esperar resultados diferentes é a definição de burrice.
Ouçamos o velho Albert e nos inspiremos nos sul-coreanos. Se fizermos o dever de casa, no próximo Carnaval nossas únicas lembranças serão a beleza da Sapucaí, o som da Timbalada ou o ritmo frenético do frevo. O resto deve ser apenas água passada.
Daniel Pereira, professor, advogado e ex-governador de Rondônia (2018).