No Brasil de hoje, você não é mais um indivíduo; você é um rótulo com pernas. Recentemente, descobri que sou um "cara legal, mas de esquerda". Quem me deu o diagnóstico foi um amigo comerciante, com aquele tom de quem lamenta uma doença crônica, mas tratável.
— Pena que você é de esquerda — disse ele, entre uma cerveja e outra.
Resolvi aplicar o método socrático, ou talvez apenas a curiosidade de quem já viu muita polarização passar debaixo da ponte.
— E por que você é de direita? — Ora — ele estufou o peito. — Defendo a família. Defendo o trabalho.
Era o momento de puxar a capivara dos valores.
— Ótimo. Quantos anos você tem? — Quarenta. — Casado? — No meu terceiro casamento.
Sorri com a benevolência de quem guarda um trunfo na manga.
— Pois olhe só: eu tenho sessenta anos e continuo no meu primeiro casamento. Pelo seu critério de "preservação da família", eu sou muito mais de direita que você.
Ele piscou, processando a aritmética conjugal. Antes que ele se recuperasse, passei para a prova dos nove: o trabalho.
— Trabalha desde quando? — respondeu ele, orgulhoso. — Carteira assinada, aos vinte.
— Pois eu era boia-fria no Paraná aos dez anos. Sol escaldante, geada e caminhão pau-de-arara. Minha primeira carteira assinada é de 1982, antes dos meus dezessete. No seu ranking de meritocracia e suor, o troféu de direitista também é meu.
Dias depois, a cena se repetiu. Um servidor público, já com a alma devidamente lubrificada por alguns chopes, veio com a mesma ladainha:
— Daniel, adoro você. Mas essa sua esquerda... sabe como é, eu sou da direita. — É mesmo? Por quê? — Trabalho, família, aquela coisa toda...
Era um déjà-vu alcoólico. O sujeito estava no quinto casamento e achava que eu, ainda no primeiro matrimônio e com mais calos nas mãos que ele, é que era o revolucionário perigoso.
A conversa, por prudência ou cansaço, não avançou para o campo religioso. Uma pena. Eu estava com o contra-ataque pronto: uma foto de 1975, minha Primeira Comunhão na Igreja São Judas Tadeu, em Terra Boa. Na imagem, o Padre Henrique aparece ao fundo, abençoando a minha cara de quem ainda não conhecia as tentações do capital nem as do sindicato.
Se o critério para o "time da direita" for a proximidade com o altar, eu ganho por W.O. Minha agenda telefônica é um verdadeiro conclave: são décadas de amizade com padres, freiras, párocos, bispos e até arcebispos. Para chegar ao papa só falta o cardeal.
Para não dizerem que sou exclusivista, dentre os contatos frequentes, tenho inumeros pastores, de diferentes denominações. Se a direita é a "defesa da fé", eu deveria ter um assento cativo na primeira fila da paróquia, enquanto meus amigos "direitistas" de boteco mal sabem o caminho da sacristia ou do púlpito.
No fundo, essa história de lado vem de longe, de quando a França resolveu organizar o caos. Na monarquia pré-revolucionária, o mapa era simples: no centro, a nobreza; à direita, o clero; e à esquerda... bom, à esquerda ficava o resto. O "Terceiro Estado". Quem não tinha título nem batina, mas tinha o mau hábito de querer jantar todo dia.
Eu, com meu passado de boia-fria e minha foto com o Padre Henrique, devo ser um erro geográfico da história. Pela fé, eu estaria à direita. Pelo calo nas mãos, à esquerda. O problema é que, hoje em dia, as pessoas preferem o rótulo ao conteúdo.
É como um vinho barato com rótulo de Bordeaux: o sujeito bebe o nome, mas o gosto continua sendo de vinagre.
Daniel Pereira. Professor, advogado e ex-governador de Rondônia.