O Agronegócio e os 'Diabos Vermelhos'

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A direita política operou um milagre de comunicação. Conseguiu convencer o homem do campo desde o pequeno agricultor que planta o almoço para colher o jantar até o magnata que monitora o boi via satélite de que a esquerda é o inimigo público número um da lavoura.
 
A memória política, como se sabe, é curta. Quando Lula assumiu o Planalto pela primeira vez, o agronegócio brasileiro estava no estaleiro, atolado em dívidas e sem ter para quem vender. O governo federal precisou desenhar um "Desenrola Rural" antes mesmo que o termo existisse, salvando muita gente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste e também no Sul e Sudeste.
 
Havia ali um fantasma herdado dos tempos da criação do Plano Real. Como exemplo, na transição da URV para a nova moeda, uma distorção bancária transformou pequenos empréstimos em dívidas astronômicas. O sujeito pegava um dinheirinho no Banco do Brasil ou no Basa e, meses depois, a dívida valia mais que a própria propriedade. Fernando Henrique Cardoso, o pai da criatura, não se coçou para resolver. Coube ao sucessor garantir que ninguém perdesse a terra por conta daquela matemática criativa.
 
Mas o grande lance foi o balcão de negócios. Três décadas atrás, éramos perigosamente dependentes dos Estados Unidos, que compravam mais de 60% do que produzíamos. O detalhe é que os americanos também vendem soja e carne. Ou seja: dependíamos da boa vontade do nosso maior concorrente.
 
Lula pegou o passaporte e foi rodar o mundo. Abriu as portas da China e da Rússia, mercados que antes eram trancados a sete chaves porque o Brasil da época tinha fobia de negociar com "comunistas".
 
Essa guinada global produziu ironias deliciosas, especialmente em Rondônia. Uma visita recente à Fiero revela um dado fantástico: o estado exporta minguados 5% para os Estados Unidos e mais de 50% para a China. Embora a palavra "comunismo" cause arrepios na população local, são os "diabos vermelhos" de Pequim que sustentam o PIB rondoniense. O dinheiro deles, vejam só, é perfeitamente capitalista. Hoje, os americanos representam apenas 12% das nossas exportações nacional. Continuam amigos, mas já não mandam no cardápio.
 
Mesmo assim, a narrativa da direita fincou bandeira na terra. Pegaram as exigências ambientais e o combate ao trabalho escravo — que deveriam ser consensos civilizatórios e econômicos, sob o risco de sofrermos boicotes globais — e carimbaram tudo como "papo de esquerdista maluco". Criou-se uma teologia ruralista onde a direita representa um deus (com "d" minúsculo, de conveniência) e a esquerda é o próprio Satanás.
 
Mas a política adora pregar peças. Derrotado em 2022, o clã Bolsonaro correu para os braços de Donald Trump em busca de afago. E o que fez o topetudo americano? Para proteger o produtor de lá, acusou o agronegócio brasileiro de competir desonestamente por não proteger a natureza e por tolerar o trabalho escravo.
 
Oxente, como se diz por aí. Mas a exigência ecológica e o combate à escravidão moderna não eram invenções maléficas do PT e seus aliados?
 
No fim, a máscara caiu com o barulho de uma jaca podre. Descobriu-se que o patriotismo de ocasião estava disposto a entregar a soberania nacional por um prato de lentilhas, aceitando o papel de capataz do "Rei do Norte".
 
A verdade revelada pelas taxas de Trump é que a coerência, na política partidária, é um artigo mais escasso que chuva na seca. O que o Brasil precisa, no fundo, é de um pouco menos de mito e de um pouco mais de juízo. Para o bem da terra, do meio ambiente e do bolso. 
 
Entendido o recado. O voto, no fim das contas, é a única caneta que o cidadão tem para reescrever o destino do país e decidir se queremos ser donos do nosso próprio nariz ou apenas inquilinos no quintal dos outros.
 
Que em outubro cada um leve para a urna a memória do passado, a realidade do presente e, acima de tudo, o compromisso de um Brasil soberano. Boa escolha. 
 
DANIEL PEREIRA: advogado e ex-governador de Rondônia (2018).
Direito ao esquecimento
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