FRANKENSTEIN: Del Toro cria um filme mais humano e menos terror - Por Marcos Souza

Assista. Está acima da média e vai deixar algumas lembranças na sua memória

FRANKENSTEIN: Del Toro cria um filme mais humano e menos terror - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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O cineasta Guillermo del Toro (diretor dos clássicos 'O Labirinto do Fauno'/2006 e 'A Forma da Água'/2017, que lhe rendeu o Oscar de direção) tinha o sonho de fazer sua adaptação do livro clássico de Mary Shelley, 'Frankenstein', seguindo o mesmo viés que ela deu ao teor da história: a do cientista que cria um 'monstro', um homem feito de pedaços de outros corpos, que ganha consciência e busca ser amado ou reconhecido como um ser vivo igual aos outros, mas que carrega a maldição de ser a 'criatura'.
 
Esse teor melancólico e trágico de Frankenstein recebe uma atenção maior e mais elaborada por parte de Del Toro, que prima desde o início pela ótica do cientista, considerado visionário, Victor Frankenstein (aqui em uma interpretação excelente de Oscar Isaac), que deseja assumir o papel de 'Deus' e criar uma vida a partir de seus experimentos. Mas qual é a função e o resultado de ter, em mãos, o poder de criar uma vida?
 
Esse é um dos questionamentos centrais do filme, que já está disponível no catálogo da Netflix. E antecipo, com firmeza, que esta é a produção mais bonita feita neste ano. Um filme belíssimo em concepção artística, com uma fotografia espetacular, cuja paleta de cores percorre do claro ao escuro com detalhes surpreendentes seja na explosão de cores de janelas ao pôr do sol, seja na escuridão dos corredores de um castelo ou das cavernas, ou ainda no provincianismo de um celeiro que serve de esconderijo para a criatura.
 
 
Tudo, absolutamente tudo, é esmerado em um bom gosto acima da média. Del Toro trabalha com cores e matizes clássicos ao abordar um tema gótico, com nuances que poderiam facilmente descambar para um terror plástico. Porém, não é essa sua intenção. O diretor quer pontuar a história de Frankenstein dentro de um conceito filosófico que busca a humanidade das pessoas através do desconhecido. A luta central reside no poder do conhecimento, quando Victor se afirma como cientista e deseja revolucionar o mundo, mas não sabe delimitar o próprio ego vasto diante do sucesso de sua criação.
 
No filme, vamos acompanhar o 'monstro' (o ator Jacob Elordi, o mesmo da série Euphoria e do filme A Barraca do Beijo, em uma atuação surpreendente) rompendo sua fúria logo no início, quando, no deserto de gelo e neve, uma frota de marujos se depara com o embate entre criador Victor e criatura. Numa sequência brutal, até que o cientista consegue escapar momentaneamente, encontrando guarida na embarcação atolada na neve. Nesse ínterim, o capitão do barco passa a ouvir a história que levou os dois a se enfrentarem de forma tão intensa.
 
Em flashbacks, vamos saber um pouco mais da família rica de Victor, seus traumas diante do poder de seu pai (Charles Dance) e sua fixação pela mãe. Quando seu irmão mais novo se torna o preferido do progenitor, a mãe morre e Victor se vê solitário; assim permanece até decidir enveredar pelo conhecimento médico e, com isso, investigar meios de manipular cadáveres e tentar criar um conceito de construir um homem a partir de pedaços aleatórios de corpos e dar-lhe vida.
 
 
Anos depois, já médico e cientista notável, essa fixação de Victor se torna sua meta de vida, mas também uma luta desigual contra colegas e mestres conservadores que desacreditam de suas teorias e propostas. Até conhecer um rico empresário armamentista, fornecedor de armas para o exército, que propõe uma sociedade na qual patrocinará todo o material, incluindo o local que servirá de laboratório, para que Victor tenha sucesso em seu experimento isso inclui até o fornecimento de cadáveres.
 
Seu irmão, já crescido e rico, está noivo de Elisabeth (Mia Goth, muito boa), e ela terá o poder de transformar a vida de Victor sem que nada faça além de demonstrar seu fascínio pela vida em essência pura, como criação da natureza. Esse contraponto em relação às intenções do cientista o encanta, mas ao mesmo tempo lhe dá ímpeto para dar vazão à sua criação.
Se no livro a personagem não tem força, sendo apenas uma figuração que sustenta o noivado de Victor, aqui, no filme de Del Toro, ela é colocada como noiva do irmão e é tridimensionada, ganhando autonomia de personalidade, com uma doçura involuntária, porém pensamento firme e não submisso.
 
Não posso revelar muito do filme para não estragar as surpresas, os elementos e camadas que o diretor insere nessa versão lírica e tão intensa, pois, se o filme evita o escapismo do terror simplesmente por mostrar um 'monstro' criado de cadáveres, a dimensão humana que essa criatura vai recebendo após seu nascimento é peculiar diante do simbolismo que observamos desde sua criação preso a uma cruz, até o livramento dos grilhões diante da morte, e como ele vai concebendo o conhecimento ao lidar com pessoas comuns, alheias à sua bondade, mas assustadas por sua aparência.
 
Se vamos ter a ascensão prodigiosa de Victor diante do sucesso de sua criação, no mesmo escopo vamos lidar com sua derrocada, sua queda diante da superioridade quase perfeita e humana da criatura, principalmente quando ela encanta Elisabeth pela sua pureza. Tudo aquilo que Elisabeth buscava estava ali, enquadrado no semblante, nos gestos delicados e, ao mesmo tempo, bruscos de um ser que busca entender o que é a vida, assim como ela.
 
 
Essa natureza de interesses eclode com a ambição e a loucura de Victor, que, do milagre que acreditara ter realizado para o mundo, passa a enxergar uma maldição e, como tal, ele se culpa. Mas ainda vê a mulher prometida ao irmão se encantar por aquilo que ele mesmo um dia rejeitará.
 
São tantas camadas explícitas nessa adaptação de Del Toro, que ele vai trazendo situações carregadas de uma densidade dramática calculada e límpida. Seja nas intenções do monstro de Frankenstein, seja no próprio cientista, consumido pela autocomiseração. E, em determinado momento, nós, espectadores, percebemos que o valor da vida para aquela criatura é tão importante quanto sua necessidade de ser reconhecido e amado em um mundo tão degenerado e consumido pela brutalidade fugaz.
 
Um grande filme, e um dos melhores do ano, com certeza.
 
A Netflix disponibilizou um documentário com o making of do filme, mostrando todo o processo de criação desde o roteiro até a maquiagem (um show à parte no conceito dado ao monstro), a elaboração dos figurinos e alguns efeitos especiais. O diretor gosta de utilizar efeitos práticos e pouco CGI, o que contribui enormemente para que o filme tenha essa concepção quase artesanal e visualmente rica.
 
Assista. Está acima da média e vai deixar algumas lembranças na sua memória.
 
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