A Disney, nos últimos anos, tem realizado alguns filmes live action de seus clássicos desenhos animados, sendo que os mais recentes são um desastre, como “Branca de Neve e os Sete Anões”, que entrou na lista dos piores filmes de 2025. A transposição de um clássico dos contos de fadas para o cinema funcionou muito bem para o desenho animado, como o clássico de 1937, o primeiro longa produzido por Walt Disney.
Em 1950, a Disney lançou outro clássico, “Cinderela”, um sucesso instantâneo. A inspiração principal foi do conto de fadas de Charles Perrault, que introduziu a fada madrinha, a abóbora, os animais que se transformam em cocheiros e até o sapatinho de cristal. Mas as versões anteriores que deram base a esse conto são mais sombrias e têm origens desde um conto chinês, passando por uma narrativa na Grécia Antiga, depois pela Itália, onde a fada madrinha ajuda Cinderela a matar sua madrasta. Outra versão, essa bastante conhecida e sombria, é a dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, que talvez se aproxime mais dessa versão cinematográfica intitulada “A Meia-Irmã Feia” (2025), produção dinamarquesa muito bem realizada pela cineasta Emilie Blichfeldt.
Eu escrevi “aproxime”, pois o que a roteirista e diretora Emilie faz aqui é um exercício extremo no que diz respeito a um grau alto de vaidade, ambição e sacrifício brutal pela beleza feminina.
O filme foi lançado no Festival de Sundance no ano passado, sendo muito bem recebido pela crítica e pelo público. No segundo semestre do mesmo ano, foi lançado nos cinemas brasileiros e depois disponibilizado no catálogo da plataforma de streaming — que é também uma curadoria — da MUBI.
E já adianto: essa é a melhor adaptação live action de “Cinderela”. O diretor não cita o nome da gata borralheira que, na história infantil, acaba virando princesa após conhecer o príncipe em um baile, onde ela só pode ficar até a meia-noite. No clímax, quando foge da festa ao badalar do relógio, perde um dos sapatinhos de cristal que estava usando, mobilizando o príncipe e seus servos na busca da prometida princesa.
Aqui, a protagonista é Elvira (a excepcional atriz dinamarquesa Lea Myren), jovem e gorda, que se torna a meia-irmã da bela Agnes (Thea Sofie Loch Næss), filha de um próspero senhor que se casa novamente com a ambiciosa Rebekka (Ane Dahl Torp). Elvira tem outra irmã, a mais nova, Alma (Flo Fagerli). Na nova casa, Elvira passa por um processo de transformação por causa de sua mãe, que a obriga a fazer procedimentos estéticos no rosto para melhorar a aparência e, assim, casar com algum jovem herdeiro rico.
Porém, logo o pai de Agnes morre, e ela fica em casa com a madrasta e as duas meias-irmãs.
Logo, Elvira e Agnes recebem um convite personalizado da casa real, convidando todas as jovens mulheres para um baile onde o príncipe vai escolher sua futura esposa. Elvira, principalmente, enxerga nisso um alento para a sua vida cerceada e oprimida pela mãe, que controla até mesmo o que ela deve comer.
O filme tem uma produção luxuosa, muito bem realizada, pois se apresenta como um filme de época, com ótimos figurinos, capricho nos cenários e na forma como é mostrada a sociedade hipócrita desse período, entre casas de luxo e um palacete, onde as mulheres, incluindo as mais velhas, privilegiam as mais bonitas. Elvira sente o preconceito por ainda tentar alcançar uma excelência entre suas concorrentes ao baile.
Daí, dessa fixação pela beleza exemplar, a mãe de Elvira impõe à filha uma transformação física dolorosa — como uma cirurgia sem anestesia no nariz — que faz com que ela passe boa parte do tempo com uma proteção nasal de metal — ou, depois, costure os cílios nos olhos — em um procedimento cruel.
São apenas detalhes mínimos que a trama da história vai apresentando entre requintes de luxo e impacto. O diretor não poupa realismo nem tomadas mais ousadas — como nudez frontal e cenas de sexo — e mostra a relação doentia de Elvira em querer transformar o próprio corpo, chegando ao ponto de engolir um ovo de verme para emagrecer — e consegue.
As consequências de todas essas ações da protagonista, sob os auspícios do controle exagerado da mãe ou mesmo das exigências dos padrões da sociedade da época, a qual ela deve seguir — principalmente para atender aos olhos exigentes de um príncipe na busca de uma companheira — a incentivam e a mantêm presa, como refém de suas armadilhas na busca do rosto e do corpo perfeitos.
No terço final do filme, “A Meia-Irmã Feia” se torna um filme de terror corporal impressionante e grotesco, com a personagem sendo vítima de suas artimanhas físicas e, para piorar, em uma espiral de loucura que a faz cometer atos insanos contra o próprio corpo.
A diretora Emilie, ao mesmo tempo que eleva o tom da morbidade ao dar um tratamento reverso ao que deveria ser um “conto de fadas”, processa o conceito da história e a forma como filma em camadas satíricas, com críticas bem distintas à vaidade, ao preconceito e à soberba.
Um belíssimo filme que pode chocar no final, mas deixa várias mensagens para pensarmos e analisarmos sobre o comportamento humano diante da fragilidade de suas decisões, principalmente as erradas.