Pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) registraram, pela primeira vez, a presença de uma larva do peixe-leão (Pterois volitans) na Plataforma Continental Amazônica (PCA), que é uma faixa submersa que se estende da costa da região do Norte do Brasil em direção ao oceano, ao largo do Estado do Amapá, comprovando a ocorrência de reprodução local da espécie invasora em uma região historicamente considerada uma barreira natural para expansão.
O estudo, conduzido por Jéssica dos Santos Lima Pantoja, Paula Nepomuceno Campos, Lucas da Conceição Corrêa, Xíomara Franchesca García Díaz, Nuno Filipe Alves Correia de Melo, André Luiz Alves de Sá, Arnaud Bertrand e Igor Guerreiro Hamoy, indica que “a presença de uma larva aponta para a reprodução da espécie na área de estudo, o que sugere que ela já se encontra estabelecida na região”, ao mesmo tempo em que ressalta os limites do achado e a necessidade de novos dados para compreender sua dinâmica populacional.
Expedição
O material foi coletado durante a expedição “AMAZOMIX”, uma iniciativa científico-oceanográfica franco-brasileira dedicada a estudar a interação entre diferentes massas de água e seus efeitos sobre os ecossistemas marinhos na Plataforma Continental Amazônica (PAC).
De acordo com a pesquisa, a área analisada compreende a faixa mais ao norte da costa brasileira, que se estende da foz do rio Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, até a Baía de São Marcos, no Estado do Maranhão. Nesse percurso, o grupo de estudo estabeleceu 35 pontos de coleta entre setembro e outubro de 2021. As amostras foram obtidas com redes de plâncton (organismos microscópicos) lançadas em movimentos inclinados na água, o que permitiu coletar organismos distribuídos desde a superfície até cerca de 200 metros de profundidade.
A larva foi coletada em mar aberto, ao largo do Amapá, e, entre 343 amostras analisadas, foi a única identificada como pertencente ao grupo do peixe-leão (Pterois volitans). Para confirmar a espécie com precisão, os pesquisadores recorreram a uma análise genética. Como descreve o estudo, “o DNA barcoding permitiu a identificação confiável da espécie”, por meio da leitura de um pequeno trecho do material genético do animal, conhecido como gene COI, utilizado como uma espécie de “código de barras” biológico.
Resultados
A identificação da larva foi feita a partir da aparência do animal, como formato do corpo e estruturas visíveis, o que permitiu reconhecer o grupo ao qual ele pertence. Por se tratar de um estágio ainda inicial de desenvolvimento e por apresentar pequenas avarias, o estudo ressalta que os critérios não foram suficientes para definir com segurança a espécie, exigindo confirmação por análise genética.
A larva tinha apenas 3,9 milímetros (mm) de comprimento — menor que um grão de arroz — e estava em uma fase inicial de desenvolvimento, quando o corpo ainda está em formação. Mesmo assim, os pesquisadores da UFRA conseguiram identificar algumas características importantes.
Segundo o estudo, o animal já apresentava “cabeça bem desenvolvida e nadadeira peitoral evidente”, além de um corpo fino e alongado. Também foram observados pequenos espinhos na região da cabeça e marcas de pigmentação nas nadadeiras, traços típicos do grupo do peixe-leão (Pterois volitans).
O ponto mais importante é a idade da larva, estimada em cerca de nove dias. Isso indica que o peixe-leão (Pterois volitans) já está se reproduzindo na região. Como afirmam os autores, “a presença de uma larva indica que a espécie está se reproduzindo na área de estudo, o que sugere que está estabelecida na região”.
Cautela
Esse achado reforça a ideia de que a espécie não chegou apenas por correntes vindas do Caribe, mas já completa seu ciclo de vida no litoral brasileiro. Ainda assim, os pesquisadores pedem cautela. Como apenas um exemplar foi encontrado, o estudo aponta que isso “levanta questões sobre a adequação das condições da plataforma amazônica para a reprodução da espécie ou para a sobrevivência de suas larvas”.
Os resultados indicam a possível existência de uma população ainda em baixa densidade, mas com capacidade de crescimento. Esse padrão é conhecido na ecologia como “população dormente”, quando a espécie permanece discreta até que mudanças no ambiente favoreçam sua expansão.
Ameaça
Do ponto de vista ecológico, o peixe-leão ameaça a biodiversidade local. É um predador oportunista, altamente adaptável e sem inimigos naturais na região invadida, o que pode alterar cadeias alimentares e reduzir a diversidade de espécies.
Diante disso, os autores defendem o reforço do monitoramento ambiental e a criação de estratégias de controle. Eles recomendam estudos sobre a distribuição, a dispersão e a dinâmica populacional da espécie para prever a expansão e reduzir impactos na costa amazônica.