A peregrinação de Nikolas Ferreira, revestida de ênfase religiosa e embalada por slogans como “Deus, Pátria e Família”, deu um nó na cabeça do bolsonarismo raiz: a crença de que Deus seria “de direita” ganhou, para muitos, uma confirmação macabra quando um raio caiu em meio à manifestação em Brasília, afetando diretamente mais de 60 pessoas.
Distorção
Ironias à parte, mas tentando compreender o universo mental de quem caminha 240 km numa peregrinação inútil, salta aos olhos um traço comum nesse tipo de mobilização: a tentativa de tratar Deus como se fosse um pistoleiro celestial, encarregado de vingar ou castigar, em nome de seus devotos, todos aqueles que não se encaixam no conceito medieval de mundo, moral e liberdade que julgam correto.
Fato
Só que um raio não é “manifestação divina”. É física. É uma condição climática que encontrou todas as circunstâncias necessárias para acontecer. Não é milagre, nem mensagem: é ação e possível consequência. É como um embriagado que assume o volante de um carro, assume também o risco de provocar um acidente. Depois, não há como alegar surpresa.
Delírio
O problema real, porém, não está apenas no ato simbólico de caminhar. Está no que se consolida por trás disso: uma realidade paralela que, quando tenta se impor no mundo real, atenta contra os princípios elementares do Estado Democrático de Direito.
Sem volta
Não há como mudar este estado de infestação coletiva de uma realidade paralela que se materializa na vida real atentando contra os princípios elementares do estado democrático de direito que nada mais nada menos representa uma constituição que resulta da evolução da espécie humana quando deixou de cometer incesto e tratar a mulher como lixo para um conceito social evoluído.
Antídoto
O que se faz necessário é uma boa educação escolar voltar com filosófica para que as futuras gerações possam pensar e não serem simplesmente manipuladas em um universo paralelo do absurdo que as deixam aptas ao estado de barbaria ao invés do estado civilizatório.
“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”