A tapioca da minha mãe - Por Simon O. dos Santos

Beradeiros e beradeiros do Berço do Madeira!  O fogo começou a lamber o nosso chão desde o dia em que a última seringueira foi sangrada e o látex escorreu pela bica, inundou a tigela, enrolou-se em seu caule rugoso e espraiou-se pelo solo do seringal São Sebastião, tonando-se um perene cernambi incandescente. 
 
Desde então meus queridos e minhas queridas, a morte lenta e estrondosa das imensas e seculares seringueiras, castanheiras, algodoeiros, ingazeiras, ouricuris e gameleiras tombadas sob o fio de aço dos machados, que ocorria sempre nos meses   de maio e junho, não parou mais.
 
Primeiro, ocorria as “brocas”, homens e meninos munidos de roçadeiras afiadas no talho do esmeril e da lima roçavam a vegetação menos densa que nascia à sombra das grandes e seculares árvores. 
 
Dias depois, os homens com seus machados indestrutíveis e insensíveis arremessavam ao solo com ímpeto, as imponentes e indefesas árvores, formando um imenso e emaranhado carrossel disforme de troncos, galhos, frutos, cipós e folhas à espera da fagulha incendiária. 
No mês de agosto ocorria o grande e esfumaçado funeral com labaredas esfomeadas, lambendo o látex derradeiro das seringueiras esquartejadas e a última seiva que ainda porejava da medula dos troncos semi ressequidos das árvores.
 
As coivaras eram o tiro de misericórdia na floresta e iluminavam a noite como se fossem imensas lamparinas fumegantes.  Ao amanhecer, um cenário cinza e ainda morno sinalizava que parte do seringal São Sebastião ficaria apenas na memória dos seringueiros e dos velhos barracões de Vila Murtinho, que hoje já não existem mais, nem seringueiros, nem barracões. 
 
Nos meses de agosto, o mundo era uma imensa fornalha a céu aberto. Redemoinhos violentos se formavam na volta do dia, levantando cinzas, fuligem  os restos de galhos negros e esturricados. Tudo era cinza, e as coisas eram impregnadas de um cheiro permanente de gordura queimada que só se dissipava com as primeiras chuvas em meados de outubro, quando a terra já plantada e as primeiras manivas rompiam a crosta cinza da terra em busca das primeiras gotas d’água. 
 
Beradeiros e beradeiras! Nessa época, o mundo cinza do mês de agosto se transmudava em uma vasta toalha verde com várias tonalidades que revestia silenciosamente a terra nua e fazia desaparecer paulatinamente o negrume estéril das queimadas.
 
Meses depois, o fruto da terra prometida era colhido e o cheiro adocicado das primeiras canjicas e pamonhas invadia as casas e se espalhava pelos quintais, afastando o cheiro de gordura queimada que revestia as coisas nos meses anteriores. 
 
A safra era uma fartura! 
 
No outro dia, ao amanhecer, o cheiro da tapioca com coco se despregava da frigideira de minha mãe, passeava pela casa e ia repousar solenemente em nossa cama. Acordávamos inebriados pelo aroma adocicado da mistura da fécula da mandioca com a castanha do coco seco.
 
Beradeiros e beradeiros! O cheiro das queimadas e o cheiro da tapioca com coco da minha mãe ainda povoam o meu mundo de criança.     As maternais tapiocas não existem mais e as queimadas de agosto, essas sim, continuam a incinerar os seringais no Berço do Madeira. 
Como escreveu Euclides da Cunha: “O homem é um fazedor de sertão”. E minha mãe, beradeiros e beradeiras, foi uma retirante, que moldou com maestria e dedicação incansáveis a tapioca nossa de cada dia. 
 
Simon O. dos Santos - Cronista
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