CABEÇA DINOSSAURO: Os 40 anos da obra-prima do rock brazuca dos anos 80 - Por Marcos Souza

CABEÇA DINOSSAURO: Os 40 anos da obra-prima do rock brazuca dos anos 80 - Por Marcos Souza

Foto: Divulgação

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Nos anos 80, aqui em Porto Velho, tinha uma boate no centro da cidade, Metrópolis, que virou referência de excelente repertório para a pista de dança; tocava quase tudo, de hits internacionais que viraram clássicos até rock nacional e, claro, tinha o momento casal, com músicas românticas para quem queria dançar agarradinho. O DJ responsável por essa seleção musical e discotecagem era o Nino, que, durante a semana, era atendente na melhor loja de discos de vinil, a Discolândia, e, à noite, aos sábados, para mim, era o rei da noite na boate.
 
E qual o motivo de introduzir esse fato na abertura dos 40 anos de lançamento do disco “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs? Porque o DJ Nino foi um dos primeiros a tocar faixas do álbum de uma das melhores bandas brasileiras da histó-ria do rock nacional, Titãs, na sua discotecagem no Metrópolis, quando todo mundo ainda estava estupefato com o que estava acontecendo no terceiro disco lançado pelos caras e as rádios tinham receio de tocar a clássica “Bichos Escro-tos”  que, na época, em 1986, foi impedida sua execução pela Censura Federal.
 
Na ocasião, para justificar a não execução da faixa nas rádios e programas de TV, a Censura Federal apresentou duas descrições na narrativa do censor responsável: a letra apresentava um “sentimento de pessimismo” e também projetava “uma imagem escatológica da realidade”. Mas a verdade era que, em determinado momento da letra, o grupo soltava um “vão se foder” em alto e bom som. Vale lembrar que era o ano de 1986, início da redemocratização no país, após o período da ditadura militar  encerrado em 1985 com as eleições indiretas que elegeram o primeiro presidente civil da República , no caso, Tancredo Neves.
 
Esse foi um dos fatores da importância singular do disco “Cabeça Dinossauro”, que trouxe uma revolução importante e seminal para a música brasileira a partir do rock nacional  de uma banda que, na época, ainda buscava reconhecimen-to artístico das grandes mídias e do público. O álbum anterior dos Titãs, “Televisão” (1985), produzido por Lulu San-tos, já era um grande disco, com clássicos como a faixa-título, “Insensível”, “Pavimentação”, “Não Vou Me Adaptar” e a quase inaudível “Massacre” - mas foi considerado um fracasso comercial pela gravadora.
 
“Cabeça Dinossauro” fez da minha geração oitentista o álbum mais tocado nas festas, junto com “Dois”, do Legião Urbana, lançado no mesmo ano. Com 13 faixas  para mim, todas clássicas e irretocáveis , o terceiro álbum dos Titãs marcou a entrada do baterista Charles Gavin (substituindo André Jung, que foi para o Ira!) e contava ainda com Arnal-do Antunes, Nando Reis, Paulo Miklos, Branco Mello, Tony Bellotto, Sérgio Britto e Marcelo Fromer  a formação clássica.
 
 
O disco trazia uma mescla de repertório raivoso, com letras que atiravam contra o Estado, a violência, a polícia, a igreja e todo tipo de “bicho” abjeto, indo do punk na faixa “Polícia” , passando pela batida antropológica a partir de cantos indígenas, como na faixa-título, “Cabeça Dinossauro”, respirando no alegre reggae de “Família”, no rock urgen-te de “Bichos Escrotos”, no pop pós-punk de “Homem Primata” e em faixas inusitadas como “AA UU” e “O Que”. Um daqueles discos célebres, com hits instantâneos.
 
Uma das fontes de um disco com faixas raivosas e de protesto tem relação com a prisão dos músicos Tony Bellotto e Arnaldo Antunes no final de 1985, por porte de entorpecente, no caso, heroína. Isso caiu muito negativamente para o grupo, que vinha em uma ascensão artística, mesmo o disco “Televisão” não tendo vendido o quanto a gravadora WEA esperava.
 
Para esse disco, a Warner convocou o produtor musical (ex-músico dos Mutantes) Liminha, então diretor artístico tam-bém da gravadora, que entrou de cabeça nas ideias musicais da banda, o que possibilitou uma dedicação para experi-mentar e ousar em muitas faixas, com uma paleta de sons e estilos sui generis para intenções mais intensas, como punk rock, pós-punk, funk rock e reggae.
 
Gravado no lendário e famoso Estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, o terceiro álbum, logo após ser lançado comer-cialmente no dia 25 de julho de 1986, e enfrentando a censura por conta de “Bichos Escrotos”, conseguiu vender, em um ano, 250 mil cópias, garantindo o primeiro disco de ouro da banda.
 
O disco tinha uma qualidade revolucionária também pelo simples motivo de a capa e a contracapa não trazerem fotos dos Titãs, sendo um dos poucos discos a utilizar esse artifício pouco comum nenhuma foto do artista responsável pela obra. Na capa do álbum foi colocado um esboço do pintor italiano Leonardo da Vinci, intitulado “A expressão de um homem urrando”, e, na contracapa, outro desenho de Da Vinci, “Cabeça grotesca”.
 
 
O disco, por meio da mídia digital (CD), teve um relançamento em 2012 com as 13 canções originais e a inclusão de suas versões demo, incluindo a inédita “Vai pra Rua”, que deveria ter entrado no álbum, mas acabou dando lugar à canção “Porrada”. Em 2021, a gravadora lançou a versão em vinil em comemoração aos 35 anos de lançamento, como um disco compacto e somente com as faixas originais, sem demos ou música inédita.
 
Atualmente, em 2026, a banda abriu uma turnê comemorativa relativa aos 40 anos de “Cabeça Dinossauro”, com show ao vivo e a presença de Tony Bellotto, Sérgio Britto e Branco Mello, da formação original, além de convidados.
 
Marco de uma geração e uma obra considerada clássica para o rock brazuca oitentista, o disco ainda permanece ousado, e sua singularidade de repertório variado de gêneros musicais acabou levando a banda a prosseguir com voos ainda mais ousados. No ano de 1987, lançaram outro grande disco, “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, e depois o que considero a grande obra-prima deles, “Õ Blésq Blom”, de 1989.
 
“Cabeça Dinossauro”, para quem ouviu pela primeira vez naqueles funestos e maravilhosos anos 80, representa bem a provocação e a revolução social e sensorial para uns nerds de 17 anos que gostavam de sair aos sábados à noite para dançar e se divertir.
Direito ao esquecimento
João Cordeiro - 17/04/2026 12:35
Marcos, como sempre, com um texto excelente, que nos faz viajar no tempo, lembrando de momentos de pura arte, crítica, criatividade e personalidades marcantes. Continue, Marcão! Continue!
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