O cinema norte-americano, desde a sua criação, passando pelos filmes mudos até chegar ao som, sempre foi pródigo em imortalizar nas telas seus heróis. Pelo menos no ponto de vista dele, claro.
De Abraham Lincoln a John Kennedy e general George Patton, passando ainda por personalidades históricas de outros países, entre elas, Gandhi, William Wallace, Joana d’Arc, Jesus, Winston Churchill, entre outros. O Brasil, mesmo em menor quantidade, conseguiu produzir longas-metragens retratando seus heróis. Às vezes seguindo a ótica histórica ou não necessariamente.
Podemos citar Dom Pedro I, Carlota Joaquina, Carlos Lamarca, Lampião – considerado herói por muitos –, Padre Cícero, Tancredo Neves, Antônio Conselheiro, Getúlio Vargas e, claro, o Tiradentes que ganhou a peja de traidor, e depois redimido, tornou-se herói nacional.
O alferes Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, um dos mais fascinantes personagens da nossa história, foi o líder da Inconfidência Mineira. Acabou traído e condenado à morte. Foi enforcado e teve seu corpo esquartejado e os membros espalhados por vários pontos. Geralmente, as produções evitam mostrar, digamos, essa parte mais sangrenta. Se bem que, se Mel Gibson não poupou Jesus, imagine Tiradentes?
A ideia era que a exposição dos restos mortais do alferes e dentista que se transformou em revolucionário servisse de aviso àqueles com os mesmos ideais de liberdade e independência. É assim, desde o Brasil Colônia, que o poder estabelecido atua. Hoje, talvez os métodos sejam diferentes; no entanto, o sistema sempre vence.
Herói não nascem para morrer definitivamente. Para isso existem os livros e mais notoriamente, o cinema que adora trazer mártires à vida para fazer o público sofrer junto. Várias produções nacionais contaram a história de Tiradentes e o longa mais recente, intitulado "Joaquim", foi lançado em 2017, com direção de Marcelo Gomes.
Em linhas gerais, o filme conta o que levou Joaquim José da Silva Xavier, um dentista comum de Minas Gerais, a se tornar Tiradentes, transformando-se em um importante herói e mártir nacional que veio a liderar o levante popular conhecido como a Inconfidência Mineira. Produção correta com atores pouco conhecidos do circuito nacional.
Já o diretor Oswaldo Caldeira escreveu, produziu e dirigiu o ambicioso "Tiradentes" - infelizmente a ambição não se fez transparecer no filme, tendo como intérprete o ator Humberto Martins. O filme conta a trajetória do líder e mártir da Inconfidência, um movimento surgido em Ouro Preto, na bucólica Vila Rica, no ano de 1789.
O filme apresenta uma visão da historiografia oficial sobre Tiradentes, de que todos os inconfidentes eram e tinham interesses em comum entre eles: a questão da derrama, o débito para com Portugal. A Inconfidência Mineira foi, ou seria, um movimento elitista.
Além de Martins, o longa conta em seu elenco com uma plêiade de atores da Rede Globo. Adriana Esteves, Marco Ricca. Nem a presença de Paulo Autran salva a produção da mediocridade. Vale assistir por curiosidade.
A filmografia voltada a Tiradentes vem dos anos 1970, e conta com um longa dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Trata-se de "Os Inconfidentes", de 1972, protagonizado por José Wilker, mestre em interpretar personagens históricos. Basta lembrar que Wilker interpretou Tenório Cavalcanti em "O Homem da Capa Preta", Antônio Conselheiro no épico "Guerra de Canudos" – estes dois filmes dirigidos por Sérgio Rezende. O ator interpretou ainda, Juscelino Kubitschek na minissérie televisiva "JK".
O destaque é a atuação de Wilker, neste drama intimista e bem no estilo do Cinema Novo. Lento, cheio de longos silêncios e focado num grupo de intelectuais e integrantes da elite brasileira que se une para libertar o país da opressão portuguesa. Dos engajados no movimento, Tiradentes é o que está disposto a levar a revolução às últimas consequências.
O diretor se baseou em textos dos poetas Tomás Antônio Gonzaga e Cecília Meireles, autora do longo poema "Romanceiro da Inconfidência". O longa tem música composta por Chico Buarque. A trilha sonora é excelente, o poema é lindo e comovente, no entanto, o longa é arrastado, diálogos intermináveis, a direção é segura e Wilker dá um show de interpretação.
Quatro anos depois chegava às telas, mais uma produção sobre Tiradentes. Tendo Adriano Reis como protagonista, "O Mártir da Independência". Seguindo a vida desse popular herói nacional desde os primeiros momentos da insurreição comandada por ele até seus últimos dias e sua morte na forca, após ser traído por Silvério dos Reis, inicialmente companheiro de lutas no movimento da Inconfidência.
Com direção de Geraldo Vietri – conhecido autor de telenovelas – o drama histórico tem no elenco nomes como a excelente Laura Cardoso, o saudoso Cláudio Corrêa e Castro, dentre outros. Tanto este como os demais filmes citados podem ser vistos no YouTube.
Curiosidades
Tiradentes também marcou presença na televisão. Mais precisamente em um dos capítulos da primeira versão da novela "Saramandaia", de Dias Gomes. Exibida em 1976, a participação especial do ator Francisco Cuoco interpretando Tiradentes sendo levado pelas ruas da cidade fictícia para sua execução pegou os espectadores de surpresa.
As cenas fazem parte das alucinações do professor Aristóbulo Camargo, interpretado por Ary Fontoura, que encontrava o inconfidente em suas noites de insônia.
A novela, escrita por Dias Gomes, era conhecida pelo realismo fantástico e contava com participações especiais de grandes nomes da época. Por exemplo, Tarcísio Meira, retomando seu papel do longa "Independência ou Morte", surge como Dom Pedro I, a cavalo. Surreal.
Tiradentes homenageado no carnaval de 1949
Muito antes de ter sido retratado nos cinemas ou na televisão, Joaquim José da Silva Xavier foi homenageado pelos compositores Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado, com o inesquecível samba-enredo "Exaltação a Tiradentes”, que rendeu o bicampeonato à escola da Serrinha no carnaval de 1949.
Desta aliança entre o samba e a história resultaram verdadeiras obras-primas da música popular brasileira, que transcenderam a esfera do carnaval e do tempo e ficaram registradas eternamente em nossas memórias. Uma destas obras, não por acaso a primeira a ser gravada em disco em 1955, é “Exaltação a Tiradentes”.
A figura histórica de Tiradentes é exaltada neste samba magnífico de forma objetiva e digna do papel e da importância deste que é, até hoje, celebrado como mártir do Brasil e símbolo da coragem e da luta de nosso povo por sua liberdade.
Joaquim José da Silva Xavier
Morreu a 21 de abril
Pela Independência do Brasil
Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais
Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado pela nossa liberdade
Este grande herói
Pra sempre há de ser lembrado.
Patrono e verdadeiro patriota
O Dia de Tiradentes, celebrado em 21 de abril, consta no calendário brasileiro como uma homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, o alferes Tiradentes, patrono das polícias militares e civis brasileiras e patrono cívico da nação brasileira.
Tiradentes honrou, com sua própria vida, valores éticos e morais, valores estes inerentes à atividade policial militar. Embora este movimento de libertação não tenha atingido seus ideais, a participação de Tiradentes foi um importante fator na formação da nação brasileira. Foi condenado e morto em 21 de abril de 1792.
A data da execução de Tiradentes se transformaria num dos marcos para a proclamação da independência do Brasil. Hoje, feriado nacional, pelo menos quem aprendeu na escola essa página triste da nossa história sabe e reconhece a importância de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, o mártir da Inconfidência.