falha na proteção às mulheres em Rondônia: Quando nossa voz será finalmente ouvida?
Em Rondônia, ser mulher ainda significa viver sob o risco constante da violência. E, muitas vezes, da omissão que o próprio Estado deveria fornecer.
Os números não deixam dúvidas sobre a gravidade do problema: Nós figuramos dentre as maiores porcentagens de feminicídio do país e com uma das maiores proporções de assassinatos de mulheres motivadas por violência de gênero.
A confluência de elementos de risco à mulher rondoniense só cresce: Ao mesmo tempo que os feminicídios aumentam, a rede de proteção que deveria evitá-los apresenta falhas estruturais profundas.
Dados recentes apontam aumento significativo nas denúncias de violência contra a mulher registradas pelo canal nacional “Ligue 180” em Rondônia, mas sem efeitos práticos.
Em 2024 foram contabilizadas 3.922 ligações, um crescimento expressivo em relação ao ano anterior. Entretanto, as mortes crescem na mesma proporção.
Esses números revelam algo preocupante: as mulheres estão denunciando mais, mas o sistema ainda não está preparado para acolher, proteger e responder na mesma velocidade.
E como agir se a porta da proteção está fechada?
Um dos maiores símbolos dessa falha institucional é a limitação de atendimento especializado às mulheres.
Delegacias especializadas, que deveriam ser um porto seguro para vítimas de violência doméstica, ainda enfrentam funcionamento restrito, falta de estrutura e deficiência de pessoal. Contamos com apenas oito Delegacias Especializada de Atendimento à Mulher (DEAMS) em todo o Estado. E quando existem, só atendem de segunda a sexta-feira, quando se sabe que a maioria dos feminicídios ocorre nos finais de semana.
A pergunta que ecoa entre milhares de mulheres é simples e dolorosa: A violência tem horário para acontecer? Não tem. Mas a proteção, em Rondônia, parece ter.
Em diversas regiões do Estado, mulheres enfrentam dificuldades para registrar boletins de ocorrência, obter orientação ou pedir medidas protetivas fora de horários limitados. Essa realidade evidencia uma desconexão entre a política pública planejada e a realidade de quem precisa de proteção.
A omissão também é violência. E a violência contra a mulher não se limita ao agressor.
Ela também se manifesta quando instituições falham.
Quando uma denúncia não é acolhida com seriedade ou com deboche.
Quando uma vítima procura ajuda e encontra portas fechadas.
Quando a estrutura do Estado não acompanha a urgência da vida real.
Inclusive órgãos de controle já apontaram a necessidade de um diagnóstico profundo da rede de enfrentamento à violência contra a mulher em Rondônia, destacando problemas estruturais e a necessidade de planejamento mais eficaz para o enfrentamento desse problema.
Ou seja: o problema é conhecido.
O diagnóstico já foi feito.
O que falta é prioridade.
Quando as mulheres terão voz? A proteção às mulheres não pode ser apenas um discurso em datas simbólicas ou campanhas institucionais.
Ela precisa se traduzir em:
• delegacias funcionando 24 horas
• estrutura adequada de acolhimento
• equipes capacitadas
• políticas públicas efetivas
• orçamento real para prevenção e proteção
Mais do que isso: as mulheres precisam participar das decisões.
Isto porque, durante décadas, homens decidiram políticas sobre violência contra mulheres sem ouvir quem vive essa realidade. Assinam pactos de combate à violência, mas só homens se sentam à mesa.
A pergunta que fica é direta:
Até quando mulheres continuarão sendo estatística antes de serem prioridade?
O combate à violência de gênero não pode ser tratado como pauta secundária.
Trata-se de dignidade, de direitos fundamentais e, acima de tudo, de vidas.
E nenhuma sociedade pode se considerar justa enquanto suas mulheres continuam lutando para serem ouvidas enquanto morrem e viram estatística.
Nós precisamos ocupar o nosso lugar de fala e assumir o lugar à mesa para podermos falar sobre a nossa realidade.