A frase dita pelo produtor Rogério Duarte para o amigo Caetano Veloso, corrobora o depoimento traumático e emocionado do cantor e compositor foco do ótimo documentário "Narciso em férias" disponível no GloboPlay, realizado pela dupla Renato Terra e Ricardo Calil.
Rogério Duarte foi um artista, músico e designer gráfico brasileiro, ligado ao movimento tropicalista. Ele é conhecido por criar capas de discos icônicas, como "Tropicalia", "Panis et Circensis", entre outras. Morreu em 2016.
Documentário
O longa é inspirado na edição avulsa do capítulo "Narciso em Férias", que faz parte do livro autobiográfico "Verdade Tropical" no qual Caetano compartilha suas memórias do período de 54 dias em que esteve preso.
Os diretores foram corajosos ao optarem em mostrar Caetano Veloso, às vezes em planos abertos, às vezes em planos fechados, sentado em uma cadeira e tendo como cenário apenas um muro de concreto ao fundo. Nada mais.
Na abertura, a trilha é a valsa Súplica, letra de Otávio Gabus Mendes e música de José Marcilio e Deo. Gravada em 1940, originalmente por Orlando Silva, conhecido como o "Cantor das Multidões". A composição é conhecida por ser uma das raras valsas da época com letra em versos brancos, ou seja, sem rima. Caetano conta que ouvira essa música na noite anterior a sua prisão e por isso o marcou.
Durante os 84 minutos de duração do documentário, o cantor relata o impacto brutal que os dias vividos no cárcere deixariam em sua vida ― não apenas pela dimensão política, mas pela perspectiva psicológica e artística. Em alguns momentos Caetano se emociona e pelo menos uma vez pede um intervalo nas filmagens.
Há um sequência, aliás bem tocante para Caetano, na qual folheia uma revista Manchete, entregue por um dos diretores, em cuja edição foi publicada matéria sobre a chegada do homem à lua. Foram essas imagens a inspiração para a futura composição Terra, gravada por ele no disco Muito (aquele em que na capa ele está deitado no colo de dona Canô, sua mãe).
Terra e Calil optaram por usar imagens de arquivo somente no encerramento do documentário. Por tanto, além do extenso relato do artista, são mostrados, por exemplo, uma foto de perfil de Caetano com o cabelo cortado fotografia da capa do livro "Narciso em Férias" e registros do processo aberto pela ditadura militar contra o cantor e compositor documentos que ficaram guardados no Arquivo Nacional e seriam revelados pela primeira vez cinquenta anos mais tarde, em 2018.
Há uma sequência em que Caetano pega o violão e canta "Hei jude", de John Lennon e Paul McCartney, "Irene", composta na cela e em homenagem à sua irmã mais nova e "Terra". Cada uma delas desperta lembranças ao mesmo tempo boas e más da época e da situação vivida.
Prisão
Na madrugada do dia 27 de dezembro de 1968, duas semanas depois de o governo decretar o AI-5, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram retirados dos apartamentos onde moravam, no centro de São Paulo, e levados em uma caminhonete ao Rio de Janeiro. Conduzidos por policiais à paisana, eles foram presos sem nenhuma justificativa.
Caetano conta que semanas depois foi finalmente chamado para ser interrogado por um general. Neste momento, ele soube o motivo de sua prisão e de Gil (que não aparece em cena). Um radialista da época chamado Randal Juliano fez denúncia - mais tarde comprovada sua inverdade, afirmando que os dois artistas durante um show na boate Sucata, haviam cantando uma versão debochada e paródica do Hino Nacional brasileiro. Foi o suficiente para serem presos.
Memórias
Em "Verdade Tropical", o livro, o músico baiano narra sua formação cultural – que inclui música, cinema, artes plásticas, literatura e filosofia , e não se limita a escrever uma autobiografia. Caetano mistura de memórias, ensaio e História, tendo como eixo central a eclosão do tropicalismo em meio aos anos de chumbo. Também esmiúça momentos decisivos da ditadura militar e os nomes com quem travou apaixonadas conversas.
A nova edição de "Verdade tropical", com projeto gráfico redesenhado, inclui texto inédito escrito especialmente para este volume. Em “Carmen Miranda não sabia sambar”, Caetano pondera sobre as duas décadas que se passaram entre o lançamento do livro, em 1997, e hoje. O livro, conforme o autor, é uma tentativa de narrar e interpretar o que se passou.
Trajetória
O compositor, cantor, produtor e escritor Caetano Veloso, nascido em 7 de agosto de 1942, é considerado um dos maiores ícones da música brasileira e um dos fundadores do movimento Tropicalista nos anos 60. Com uma carreira de mais de cinco décadas e diversos pre8, ele é reconhecido internacionalmente pela sua influência cultural, inovação musical e letras poéticas.