Há pelo menos três décadas, o cantor e compositor Roberto Carlos ligou o piloto automático e resolveu trocar a música por negócios multimilionários do ramo imobiliário - como se ele precisasse - no entanto, apesar de muitos críticos torceram o nariz para sua obra, não dá para negar a ele o seu devido lugar na história da música brasileira. Neste domingo, dia 19, Roberto Carlos comemora seus 85 anos.
Quando completou oito décadas de vida, pelo menos três livros biográficos foram lançados, e mesmo Roberto Carlos não gostando que outros contem sua história, e o seu ponto de vista - faturem com ela - os lançamentos não puderam ser impedidos, proibidos ou apreendidos, como aconteceu com o livro "Roberto Carlos em detalhes", do pesquisador e historiador Paulo César de Araújo, cuja pesquisa consumiu 15 anos de sua vida. O rei impassível não leu e não gostou. Mas, felizmente os tempos mudaram.
Araújo não se deu por vencido e voltou à carga com um novo livro "Roberto Carlos outra vez", em dois volumes. O primeiro saiu com quase 900 páginas. Realmente, uma obra de fôlego e haja braço para leitura tão extensa. O segundo volume, ainda nem sinal.
"Roberto Carlos outra vez" pode parecer uma versão atualizada de "Roberto Carlos em detalhes", no entanto, não é, pois vai muito além do livro original, que também é excelente.
Pena que o biografado não leu, não gostou e pior, mostrou sua pior face, o de censor. Todo o embate da proibição de Roberto Carlos em detalhes, Araújo conta no excelente "O réu e o rei, minha história com Roberto Carlos, em detalhes". Pura provocação.
Com o parceiro Erasmo Carlos e outros autores que se tornariam grandes nomes da nossa música, estabeleceu as bases para o rock nacional, porém o pioneirismo cabe à Celly Campello.
A Jovem Guarda influenciaria o comportamento da nossa juventude e a forma como a sua trilha sonora seria feita no país, alçando o cantor a um nível de sucesso inimaginável ― uma beatlemania à brasileira, que provocaria debates, polêmicas e passeatas contra a guitarra. Até que, no início dos anos 1970, um novo Roberto começa a surgir – conforme poderá ser visto no volume 2 desta biografia, se algum dia for lançada.
Jotabê Medeiros - autor das biografias de Belchior e Raul Seixas - também resolveu mergulhar fundo na história e na carreira do rei no menos extenso "Roberto Carlos por isso essa voz tamanha", título tirado de um trecho de Força estranha, música composta por Caetano Veloso e gravada por Roberto.
Medeiros segue outro viés e por isso faz valer a pena ler seu livro, que apesar de focar no mesmo personagem da obra de Araújo, é bem diferente.
Este livro percorre o universo suburbano por onde Roberto Carlos circulava no início dos anos 1960, pouco antes de estourar no rádio com Splish Splash e É proibido fumar, e na televisão à frente da Jovem Guarda. Os programas de rádio do Rio e de São Paulo que pegavam fogo, as bandas de rock que se multiplicavam arrastando multidões, o impacto comportamental e publicitário do iê-iê-iê, os ecos na personalidade metódica e na carreira construída com esmero, as amizades e turbulências com Tim Maia, Erasmo Carlos e o exuberante Carlos Imperial.
O terceiro livro em homenagem a Roberto Carlos, ao contrário dos anteriores, tem o foco centrado mais na obra do cantor e compositor, como explicita o título escolhido pelo autor Tito Guedes - "Querem acabar comigo, da Jovem Guarda ao trono, a trajetória de Roberto Carlos na visão da crítica musical".
O livro é curto, o que significa uma leitura rápida. Com prefácio do jornalista Arthur Dapieve, Querem acabar comigo é fruto de uma pesquisa extensa e resultado é um retrato da obra do Rei a partir de uma perspectiva inédita.
O autor lembra que desde a Jovem Guarda, Roberto Carlos é um sucesso de público e fenômeno de vendas. A crítica musical, porém, demorou a lhe estender o tapete vermelho. A maior parte do tempo ele foi visto como um cantor alienado, brega, carola e acomodado.
Para contar a trajetória do mais bem-sucedido nome da música brasileira de todos os tempos, sob o ponto de vista da imprensa especializada, o pesquisador Tito Guedes garimpou centenas de resenhas publicadas desde os anos 60 até hoje
em grandes veículos como Folha de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo, Manchete e Veja.
E, ao longo do tempo, muitas das críticas sobre os discos de Roberto Carlos foram assinadas por nomes de prestígio, entre eles Sérgio Cabral, Flavio Marinho, Augusto de Campos, Fausto Wolff, José Miguel Wisnik, Tárik de Souza, Mauro Ferreira e Carlos Calado.