Em debate no Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), ganhou força a preocupação de que o domínio territorial de facções criminosas na Amazônia Legal pode representar um risco à soberania nacional — um cenário que, segundo o diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima, poderia até servir de justificativa para intervenções estrangeiras na Pan-Amazônia.
Em entrevista à plataforma Sumaúma, Lima alertou que o crescimento e a presença de grupos do crime organizado na região, especialmente em áreas de fronteira, podem ser usados por potências estrangeiras em discursos políticos para legitimar ações no território amazônico — um risco que, para ele, ficou explícito após o recente ataque dos Estados Unidos à Venezuela.
O estudo de 184 páginas, produzido ao longo de três anos em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), o Instituto Mãe Crioula, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e outras organizações, traz um retrato aprofundado da criminalidade na região. A pesquisa combinou entrevistas com servidores públicos, análises de dados oficiais e viagens a áreas de fronteira no Brasil.
Segundo o levantamento, existem 17 facções criminosas ativas na Amazônia Legal brasileira, incluindo grupos com atuação transnacional como o venezuelano Tren de Aragua (TdA). Essa facção foi classificada em fevereiro de 2025 pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos como uma “organização terrorista estrangeira”, e o estudo estima que ela já esteja presente em três dos 15 municípios de Roraima.
Para Lima, a presença desses grupos pode ser explorada em discursos externos para pressionar o Brasil ou justificar intervenções internacionais — motivo pelo qual ele defende que o país reforce o controle territorial e a atuação do Estado, inclusive atualizando sua doutrina de segurança e aumentando a presença das Forças Armadas na região para “fechar essa brecha”.
O alerta ocorre em um contexto em que a segurança pública na Amazônia já vinha sendo debatida por organizações brasileiras, com pesquisas anteriores apontando que o crime organizado e a violência letal são desafios centrais para a região, frequentemente vinculados ao garimpo ilegal, narcotráfico e exploração de recursos naturais.