O curta-metragem de produção rondoniense, “Ela Mora Logo Ali”, escrito e dirigido por Fabiano Barros e Rafael Rogante, baseado no argumento de Fabiano, foi produzido em 2022, após ser contemplado pela Lei Aldir Blanc, em 2021, do Governo de Rondônia, por meio da Secretaria da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer (Sejucel), e é uma das produções da cena cinematográfica amazônica mais premiadas do Brasil desde que foi lançada.
Os méritos artísticos são notáveis desde o elenco, puxado pela protagonista dona Nininha (num trabalho excepcional e emocionante da atriz Agrael de Jesus), que dá o tom humano e urgente da trama, muito bem desenvolvida em 16 minutos de projeção, até o trabalho técnico da equipe, que apresenta um filme bem fotografado - em mais um belo trabalho de Neto Cavalcanti (co-diretor e responsável pela fotografia do filme “Amor de Mãe”, de 2018, do ator e diretor Anselmo Vasconcelos) -, delicado em cenas pontuais da personagem na perspectiva de sua descoberta e busca, ou no tratamento dado a uma mãe atípica em relação com o filho.
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A história é simples e básica, mas é a visão cuidadosa ao tratar um tema tão difícil, como o acolhimento em camadas de uma trabalhadora ambulante, que vende bananas fritas pelas ruas da cidade para sobreviver e dar uma vida digna aos filhos no caso, à filha mais velha, muito bem interpretada pela fotógrafa e produtora cultural Marcela Bonfim e ao jovem especial, que necessita de cuidados.
As imagens limpas e serenas mostram o cotidiano dessa senhora batalhadora, que, após o serviço feito nas ruas, pega o ônibus coletivo para ir para casa e senta ao lado de uma moça que lê um livro. Nesse momento, que parece incomum em tempos de celulares e redes sociais , revela-se uma das camadas mais interessantes, pois percebemos que dona Nininha não sabe ler, mas é curiosa. Compreende de imediato que a leitura traz uma novidade para sua vida, algo que não teve oportunidade de experimentar, mas que a atrai como algo bom.
É um reconhecimento sutil, preciso para quem gosta de ler e sabe da importância do universo da leitura como foco de distração e aprendizado. No cotidiano duro de dona Nininha, ver aquela moça lendo ao seu lado é como uma força da natureza que imprime um desejo de saber o que está sendo contado naquelas páginas.
Preciso destacar o cenário do interior da casa, na beira do rio Madeira, com aquele janelão bonito, de frente para o rio, com a senhora apoiada e tomando o seu café matinal. Que cena absurdamente poética e linda, que traz uma tranquilidade e serenidade culta à força de viver daquela família. Ela motiva beleza e reflexão, pois são coisas simples assim que nos permitem enxergar que, mesmo diante das dificuldades da vida, os momentos de plenitude se encontram num simples contemplar como um respiro para o dia que vem. Sensacional.
Pode nem ser essa a intenção, mas, na interpretação do espectador, é comovente e necessário.
O detalhe da montagem precisa de Michele Saraiva deixa a narrativa fluir naturalmente, como uma crônica que vai amalgamando gestos e olhares, seja dentro do ônibus ou nas andanças de busca de dona Nininha, permitindo uma identificação com pessoas comuns que parecem anônimas à primeira vista, mas que aqui ganham relevância emblemática. Mãe, trabalhadora, carinhosa e dedicada.
Lembrei que, há um tempo, havia uma senhora negra que andava com uma bacia nos semáforos, vendendo banana frita em saquinhos, e, em minhas andanças de ônibus ou caminhando pela cidade, eu a encontrava debaixo do sol, abordando motoristas e pessoas nas ruas, oferecendo seu produto. Muitas vezes ignorada ou evitada. E eu via naquela imagem de batalha um reconhecimento de vida dura, digna de uma mulher que devia ter uma grande história.
Assistindo “Ela Mora Logo Ali”, revi na memória essa mulher.
Acredito que colocar dona Nininha, curiosa, numa relação imediata de conversa com a leitora do ônibus cria a melhor camada de virada na vida dessa mulher. Vou evitar dar spoiler sobre esse breve relacionamento de descoberta da história e do livro que a moça tem em mãos, pois é isso que conduz a busca da senhora quando descobre um alento para o filho e até mesmo a descoberta de uma palavra que consegue ler ela, uma mulher analfabeta.
Sutil, humano, lindo como uma poesia urbana em contemplação de personagens comuns com uma grande história de vida. “Ela Mora Logo Ali” é um retrato poderoso e impactante do cotidiano que presenciamos, mas não conhecemos. Que bom que esse curta tem essa mensagem.
O filme rondoniense participou de diversos festivais, recebendo destaque e vários prêmios, entre eles o tradicional Festival de Gramado, onde arrebatou três importantes prêmios na categoria de curta-metragem. Foi também destaque e um dos vencedores do Festival AluCine Latin Film + Media Arts 2024, realizado em Toronto, no Canadá.
“Ela Mora Logo Ali” está disponível no catálogo do serviço de streaming Itaú Cultural Play gratuito e com à disposição filmes nacionais de grande relevância no cenário cinematográfico, entre longas e curtas. O aplicativo pode ser baixado no Google Play e permite transmissão para a TV.