A Cabeça do Santo (Companhia das Letras/2014) é um romance que usa o realismo mágico como força motriz do cerne da história que envolve o personagem e protagonista, Samuel, um homem humilde, sem recursos, que mora numa cabeça gigante de uma estátua de Santo Antônio, numa cidadezinha abandonada no sertão do Ceará, chamada Candeia. Cria da escritora cearense Socorro Acioli, o livro teve grande repercussão no ano de seu lançamento e já está na 17ª reimpressão; pelo menos é o que indica a publicação que eu ganhei. O romance já ganhou traduções para o inglês e para o francês.
Esse livro foi um presente carinhoso de uma amiga maravilhosa e eu não o conhecia, até descobrir que teve ótima repercussão entre leitores brasileiros. A prosa da autora, Socorro, é simples, a narrativa é direta, com algumas quebras temporais — com o uso de flashbacks pontuais — para estender a vida de algum personagem que está bem estabelecido no enredo e, por vezes, tem um segredo a revelar.
Vale ressaltar que esse livro só foi possível porque a autora relata — no posfácio e nos agradecimentos — que a história que marca o seu primeiro romance escrito nasceu de uma oficina de escrita feita pelo estupendo escritor colombiano Gabriel García Márquez (autor de um dos maiores livros da humanidade, “Cem Anos de Solidão”).
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Fã de Gabriel, Socorro criou uma história bem bolada, regional, quase ritualística religiosa e inesperada pelo enredo, que cria uma ciranda de emoções envolvendo temas como família — principalmente —, miséria, ignorância popular, romance, amor, ódio, corrupção, um pouco de política e oportunismo. Ela amalgama sentimentos a partir da visão simples de Samuel, que é obrigado a atender aos desejos de sua falecida mãe, feitos em seu leito de morte.
Samuel, que vivia com sua mãe em Juazeiro do Norte, interior do Ceará, Mariinha, mulher devota de santos, muito religiosa e que cuidou sozinha do filho, pois ele cresceu sem pai, é obrigado a viajar sem nada, a pé, até a cidade de Candeia, onde deve procurar e conhecer sua avó, Dona Niceia, e seu pai, Manoel, que moram em um endereço anotado em um papel velho que ela passou para ele como única referência.
Ali ele deve conseguir ajuda e um lugar para morar. Porém, desde a cruel viagem que faz pelo calor do sertão, passando fome e sede, ficando em um estado miserável, quase um trapo humano, a autora deixa bem claro que Samuel é um provinciano, ligado às suas raízes humildes, sem ambição, a ponto de enveredar numa jornada em que corre o risco de morrer.
Uma vez na cidade, onde é visto como mendigo, ele encontra a casa da avó. Porém, um temporal atinge a região e o único lugar que ele encontra para se abrigar é uma “caverna”, indicada de forma ríspida pela senhora, que o atendeu muito mal. Logo no outro dia, ele descobre que a tal caverna é, na verdade, uma enorme cabeça abandonada em um canto isolado, que faz parte de uma estátua gigante de Santo Antônio, o santo casamenteiro.
Ali vai conhecer o jovem Francisco, que utiliza o abrigo para ver revistas pornográficas que recebia de caminhoneiros que cruzavam a pequena cidade. Isso vai ser utilizado como forma de chantagem por Samuel para conseguir alimento, remédio e até agasalho.
O interessante disso é que vamos descobrindo que Candeia é uma cidade esquecida, abandonada, que conta hoje somente com 20 moradores, e que possui muitas casas abandonadas, largadas e esquecidas. Pois, devido a um fato envolvendo a estátua incompleta de Santo Antônio e a cabeça gigante largada, virou uma terra ignorada.
Entre os poucos habitantes que ficaram, estão o adolescente Francisco e seu pai, Chico Coveiro, que, como o apelido diz, é o coveiro da cidade e um dos únicos três funcionários bancados pela prefeitura da cidade. O prefeito não mora na cidade e aparece uma vez por ano, e olhe lá.
Nesse cenário desolador, Samuel, dentro da cabeça de concreto da estátua, passa a escutar vozes, rezas e sussurros de mulheres — clamores em busca do amor verdadeiro — e percebe que são orações de moças jovens ao santo casamenteiro. A mágica é que ele pode ouvi-las através da cabeça do santo, mas somente ele, e não sabe o motivo de isso acontecer. Porém, o que o fascina é que, de manhã cedinho, ele ouve uma voz feminina que canta versos desconexos, mas cuja tonalidade o fascina.
Dessa premissa, ele e Francisco elaboram um jeito de ganhar dinheiro com esse “dom” de Samuel, principalmente quando ele consegue casar uma das moças da cidade com o único médico que vem uma vez por semana atender no postinho de Candeia. A partir desse fato, um radialista divulga o “milagre” do homem que ouve Santo Antônio, e a cidade vira um pandemônio, com dezenas, centenas de mulheres em busca de casamento, procurando Samuel como um predestinado.
Isso é apenas a ponta da história, que tem subplots — dramas em torno dos personagens — que vão se costurando à medida que segredos são revelados, principalmente quando envolvem o passado do pai de Samuel ou de outros personagens importantes, como uma mulher traída e suas filhas.

Socorro cria capítulos curtos; com concisão, ela vai tecendo os dramas e ganchos que vão se resolvendo aos poucos, ou mesmo de forma rápida, criando sequências narrativas muito bonitas e outras inesperadas, como a do cinema, que envolve o filme “Casablanca”.
É uma narrativa deliciosa e caprichada, que envolve e deixa fluir nossa imaginação como leitores, sendo capaz de criar as imagens descritas.
Eu creio que apenas na parte final a autora acelera mais e perde o tom que impressiona no início, se perdendo um pouco nas decisões do personagem Samuel em relação ao destino que escolhe. Eu compreendi a costura narrativa que ela fez para que ele possa descobrir um segredo sentimental que o assola em relação à voz que canta, mas, ainda assim, eu me apeguei à cidadezinha de Candeia e a seus moradores, e descobrir que o seu destino final não era aquele que a gente imaginava acaba sendo triste.
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Socorro Acioli é uma autora cearense que já tem o prestígio pelos livros infanto juvenis, como “Ela tem olhos de Céu”, que a consagrou com o prêmio Jabuti em 2013. “A Cabeça do Santo” foi o seu primeiro romance. Ela possui Mestrado em Literatura Brasileira e Doutorado em Estudos de Literatura e tem um alcance de sucesso no exterior impressionante, com suas obras publicadas em vários países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, México e na Itália.
Tendo recebido ótimas críticas e alcançado sucesso de vendas, “A Cabeça do Santo” tem um sabor de crença religiosa, com a simplicidade das relações humanas que envolvem família e oportunismo, e há projeto para virar filme. Já é certo que, no ano de 2027, a Escola de Samba Unidos da Tijuca, do carnaval do Rio de Janeiro, terá a obra como tema de seu enredo.
Uma curiosidade incrível: a cabeça da estátua realmente existiu, ela faz parte de uma estátua inacabada de Santo Antônio - de 19 metros - instalada no município de Caridade, no Ceará. Sabe se que a estrutura ficou décadas separada do corpo, servindo como uma espécie de "relíquia urbana" ou abrigo no alto de um morro, tampando um portão. Foi noticiado depois, que em dezembro de 2025, após 39 anos, a cabeça da estátua foi finalmente içada e instalada no corpo.