Há duas décadas, o roteirista e diretor Quentin Tarantino realizou o seu quarto longa metragem. Produzido pela então toda poderosa Miramax, Kill Bill foi divido em duas partes. A primeira lançada em 2004 e a segunda, no ano seguinte. Tarantino, mesmo contrafeito engoliu. Passadas duas décadas, finalmente o público tem a oportunidade de assistir em edição única Kill Bill Whole Blood Affair, que estreou no Cine Araújo, na capital, nesta quinta-feira, 5 de março de 2026.
Assistir ao filme na telona foi uma experiência impar. Com duração de 4h20 e um intervalo de 15 minutos, o público que esteve ontem na sessão única das 19 horas, viveu intensamente cada cena e certamente as 25 pessoas presentes, incluindo a mim, saíram do cinema com uma certeza: Quentin Tarantino é um cineasta único. Depois de assistir Kill Bill 1 e 2 na telinha via dvd ou blu-ray é uma coisa. Agora, assistir numa sala de cinema, ah, caro leitor, é outra história.
Apesar do que propala o cartaz do filme anunciando cenas inéditas e mais sangrentas, quem assistiu Kill Bill mais de uma vez vai notar pequenas mudanças, porém nada de extraordinário. Por exemplo, o confronto com o 88 Maníacos é mais longa. No meio da luta. Na versão original, A Noiva pisca e a cena fica preto e branco, nesta versão não existe essa sequência. A cena de Sofie Fatale no porta malas do carro mostra a Noiva decepando o outro braço da capanga de O-Shin. Quando Sofie está no hospital e Bill conversa com ela tem diálogo diferente do original e em seguida entra o intervalo.

Referências não faltam em Kill Bill cuja divisão continua como nas versões da época do lançamento, ou seja, são dez capítulos, mas não em ordem cronológica. A versão completa segue a mesma montagem que o público conhece. Outro ponto a destacar, a sequência em animação da Noiva narrando a origem de O-Shin. Mais longa e violenta, inclusive mostra sua vingança contra o vilão que mata seu pai com uma espada samurai.
Quentin Tarantino antes da consagração como roteirista e diretor, trabalhou anos numa vídeo locadora e foi ali, e não numa faculdade, que aprendeu a fazer cinema. Desde o primeiro trabalho - Cães de Aluguel, referências e citações cinematográficas fazem parte da sua filmografia e sendo o auge, a obra prima Era uma vez em Hollywood, seu nono longa metragem e vencedor de dois Oscar das dez indicações, levou melhor Design de Produção e ator coadjuvante para Brad Pitt.
Em Kill Bill Whole Blood Affair, o diretor construiu uma imensa colcha de retalhos cinematográfica na qual quase toda cena é uma referência direta ou uma homenagem às convenções de gêneros como faroeste e kung fu, desde um simples diálogo à trilha sonora de toca em determinadas cenas.
A Noiva: A personagem de Uma Thurman não tem seu nome revelado no primeiro volume, com um apito tocando quando ele é mencionado, seguindo a tradição de filmes como "a trilogia dos dólares" de Sergio Leone. O icônico macacão amarelo de Bruce Lee em "Jogo da Morte" faz uma aparição no figurino da noiva em "Kill Bill Vol. 1".
A noiva enfrentando os mafiosos da gangue Crazy 88 com a mesma estética de cena de "Samurai Fiction". Do filme Lady Snowblood, o diretor faz referência ao papel da atriz Meiko Kaji, a inspiração estética para a personagem de Lucy Liu que interpreta O-Shin.
As coreografias têm referências diretas a diversas cenas de luta dos filmes de Bruce Lee. Um dos destaques, Pai Mei é o arquétipo exagerado do mestre sábio e poderoso de artes marciais, em uma versão arrogante e sociopata.
As trilhas de Tarantino são uma espécie de assinatura do diretor em seus filmes e "Kill Bill" não é diferente, reunindo desde Johnny Cash a clássicos da disco music e faixas da lenda dos temas de faroeste Ennio Morricone. Outras referências: música tema da série O Besouro Verde com Van Williams e Bruce Lee como Kato. A gangue 88 Maníacos usa o mesmo tipo de máscara usada por Lee no seriado dos anos 1960.
Tarantino homenageia um dos seus astros favoritos do cinema de Kung fu. Sonny Chiba, o intérprete do homem que fabrica a espada a pedido da Noiva. Trata-se de Hattori Hanzo. Sonny Chiba, uma lenda do cinema do asiático. O novo Hanzo seria parente distante do Hattori Hanzo real do século 17, guerreiro histórico que foi vivido por Chiba na série de TV "Shadow Warriors.
A Flauta de David Carradine, é a mesma usada por ele durante o seriado Kung Fu, protagonizado pelo ator nos anos 1970. Aliás, papel criado por Bruce Lee, mas os produtores o cortaram por achar que o público não aceitaria um asiático no papel principal. Puro preconceito. E tem muitas outras referências.
Não poderia deixar de citar mais duas ou três. Quando Elle Driver, personagem de Dayll Hannah, vai ao hospital matar a Noiva, a montagem mostra a tela dividida em duas. Uma homenagem ao filme Vestida para matar e seu diretor Brian De Palma. Depois da luta entre A Noiva e Elle no trailer de Budd, quando Uma Thurman sai e a porta se fecha atrás dela, é uma referência ao clássico de John Ford, a obra prima Rastros de Ódio. Até Blade Runner Caçador de androides recebe deferência quando Elle tem um final muito parecido de outro personagem da atriz, a replicante Pris, do filme de Ridley Scott. Ambas terminam se debatendo em desespero no chão.
As coreografias de "Kill Bill" tem referências diretas a diversas cenas de luta dos filmes de Bruce Lee. Uma das mais claras é a noiva cercada por mafiosos igual ao astro chinês em um dojo no longa de 1971. Pai Mei é era personagem recorrente nos anos 1970, aparecendo em filmes como "Carrascos de Shaolin" e se tornando ainda mais sádico no filme de Tarantino.
Kung Fu e Shaw Brothers: A estética de luta, zooms rápidos e trilha sonora referenciam filmes de artes marciais dos anos 70, como The Chinese Boxer (1970) e produções do estúdio Shaw Brothers. Bruce Lee: O macacão amarelo usado pela Noiva é uma cópia direta do visual de Bruce Lee em Game of Death (1972). Western Spaghetti e Anos 70: A estrutura de vingança, o uso de trilhas de Ennio Morricone e o estilo de direção lembram Domingo Negro (1977).
O duplo também serve como referência em Kill Bill. Michael Parks interpreta o Ranger Earl McGraw que investiga o massacre na capela e retorna no final como o traficante idoso Esteban Vihaio, que ajuda a Noiva a encontrar Bill.
Gordon Liu Chia-Hui Liu interpreta Johnny Mo o líder da gangue 88 Maníacos O-Ren Ishii, e também atua como Pai Mei, o mestre de artes marciais que treina a Noiva.
Kill Bill funciona como uma grande carta de amor de Tarantino a gêneros "B" que moldaram sua carreira. É cinema absoluto, como diria Martin Scorsese, outro mestre reverenciado por Tarantino, além de Sérgio Leone, John Ford, Brian De Palma, dentre outros tantos cineastas da história do cinema.