O ciclo do cangaço foi um fenômeno social do Nordeste brasileiro entre o final do século XIX e 1940, marcado por grupos armados que viviam no sertão desafiando a ordem dos coronéis e do Estado. Os historiadores, pesquisadores, cantadores de feiras, cordelistas e a história oral, aquela contada e eternizada pelo povo de geração para geração, cada um contribuiu para a divulgação do cangaço, seus mitos e verdades.
O cangaço surgiu em meio à pobreza extrema, concentração de terras e ausência do Estado no sertão. Havia três tipos de cangaceiros: cangaceiros de coronéis: milícias particulares protegidas por latifundiários; cangaceiros políticos: mercenários a serviço de políticos para disputas locais; e ainda, os cangaceiros independentes: os mais conhecidos, viviam sem padrinhos e retiravam da natureza o que precisavam.
Lampião (Virgulino Ferreira da Silva) é o mais famoso cangaceiro. Entrou no cangaço para vingar o pai assassinado. Tinha bando organizado e contatos com políticos. Maria Bonita (Maria Gomes de Oliveira), a primeira mulher a integrar um bando de forma permanente. Símbolo da presença feminina no cangaço. Já Corisco (Cristino Gomes da Silva), conhecido como "Diabo Loiro", tenente de Lampião. Tentou manter a luta após a morte do líder até 1940.
O governo de Getúlio Vargas passou a tratar os cangaceiros como desordem nacional e inimigos públicos. O marco do fim foi a emboscada das "volantes" em Angico, Sergipe, em 1938, onde Lampião, Maria Bonita e parte do bando foram mortos.
O cangaço durou até a década de 1930, sendo desarticulado no início dos anos 1940 após ampla campanha do governo. Antes de Vargas, muitos cangaceiros eram mantidos pelos próprios latifundiários para cobrança de impostos e garantia de voto.
Cangaço e cinema
Cangaço virou um subgênero do cinema brasileiro ao misturar western, tragédia nordestina e política. Um rico filão explorado até o bagaço. Dá pra dividir em três fases principais:
Fase clássica
Tem início com o western brasileiro O Cangaceiro (1953), do diretor Lima Barreto. O filme colocou o cangaço no mapa mundial. Ganhou em Cannes e virou referência estética. O capitão Galdino de Milton Ribeiro é um Lampião romantizado. Criou o visual que todo filme depois copiou.
Lampião, o Rei do Cangaço (1964) - Carlos Coimbra. Tentativa de biografia que mostra Lampião entre o herói popular e o bandido cruel. Usa muito do mito: a paixão por Maria Bonita, o código de honra, a violência seca.
Fase revisionista - anos 60/70
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) - Glauber Rocha. Não é "sobre Lampião", mas é o cangaço como ideia. Glauber usa o beato e o cangaceiro para discutir messianismo, fome e revolução. Corisco é Lampião depois de morto: alucinado, profético. Aqui o cangaço vira metáfora do Brasil. Cinema Novo puro.
O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) também de Glauber Rocha, é a continuidade temática. O matador de cangaceiros Antônio das Mortes enfrenta o último cangaceiro, Coirana. É western político. Glauber mata o cangaço para dizer que só a luta do povo organizado resolve.
Corisco, o Diabo Loiro (1969) - Carlos Coimbra. Foca no sucessor de Lampião. Mais violento e psicologizado. Mostra o bando já em decadência, cercado pela volante. Desmistifica: Corisco é cruel, drogado, paranoico.
Retomada e contemporâneo
Baile Perfumado (1996), dos cineastas Lírio Ferreira e Paulo Caldas. O protagonista é Benjamin Abraão, o libanês que filmou Lampião em 1936. O cangaço aparece através da câmera. Discute imagem, espetáculo e como Lampião se construiu como popstar do sertão. Este longa é um dos marcos da Retomada da produção do cinema brasileiro pós-era Collor. Poderíamos citar a refilmagem de O Cangaceiro, de Anibal Massaini, mas a produção ficou aquém do esperado.
O Auto da Compadecida (2000) de Guel Arraes, a partir da obra do mestre Ariano Suassuna. O cangaceiro Severino vira alívio cômico e depois drama. Baseado em Suassuna, mostra o cangaço já folclórico, parte do imaginário popular. Lampião nem aparece, mas a sombra dele está ali.
Entre Irmãs (2017), de Breno Silveira, o mesmo da cinebiografia de Luiz Gonzaga, mostra o cangaço pelo olhar feminino. Duas irmãs separadas: uma vira parte do bando, outra fica na cidade. Humaniza Maria Bonita e as mulheres do cangaço, fugindo do estereótipo.
Mito vs História
De O Cangaceiro até Baile Perfumado, o cinema brigou com a imagem de Lampião. Herói social ou bandido sanguinário? Todos usam e abusam da estética do sertão: luz estourada, caatinga, chapéu de couro, rifle papo-amarelo. Virou gramática visual. Todo filme de cangaço é também sobre a ausência do Estado. A volante é tão brutal quanto o bando. Glauber transformou isso em tese política.
Cangaço na televisão
Lampião e Maria Bonita (1982) - TV Globo. Minissérie em oito episódios dirigida por Paulo Afonso Grisolli e Luís Antônio Piá. No elenco, Nelson Xavier como Lampião, Tânia Alves como Maria Bonita. Foi a primeira grande produção da TV sobre o tema.
Virou referência absoluta. Humanizou o casal, mostrando Lampião entre o violento e o apaixonado. Teve audiência massiva e redefiniu o imaginário do cangaço pra toda uma geração. Ganhou vários prêmios internacionais.
Maria e o Cangaço (2025) - Disney+. Minissérie em seis episódios. Criação e direção de Sérgio Machado. Os destaques do elenco: Isis Valverde como Maria de Déa/Maria Bonita, Júlio Andrade como Lampião.
A minissérie teve como base o livro Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, de Adriana Negreiros. A produção foca no ponto de vista feminino. Mostra Maria de Déa antes de virar Maria Bonita, uma jovem que desafia o sertão dominado pela violência masculina. Estreou em 4 de abril de 2025.
A de 1982 consolidou o mito romântico do casal na TV. A de 2025 desconstrói, trazendo pesquisa histórica e protagonismo feminino. São 43 anos de diferença que mostram como o olhar sobre o cangaço mudou: de lenda pra debate sobre gênero e violência.
Teve outras menções em novelas como Cordel Encantado e Tocaia Grande, mas como trama principal na TV, essas duas minisséries são as principais.
Guerreiros do Sol (2025), do Globoplay. Superprodução baseada na obra homônima do historiador Frederico Pernambucano de Mello, um dos maiores pesquisadores do cangaço no Brasil.
Produção original do Globoplay, estreou em 11 de junho de 2025. George Moura e Sergio Goldenberg são os autores e o elenco conta com Thomás Aquino como Josué e Isadora Cruz como Rosa, José de Abreu, Alinne Moraes, Irandhir Santos, Alexandre Nero.
A trama acontece entre os anos 1920-1930 no sertão. Rosa e Josué se apaixonam, mas ela é obrigada a casar com o coronel Elói. Depois que o pai de Josué é assassinado a mando do coronel, ele e os irmãos entram pro cangaço no bando de Miguel Ignácio. Josué vira líder, conhecido como "Governador do Sertão".
Guerreiros do Sol é a primeira novela com o cangaço como eixo central desde Tocaia Grande em 1995. A diferença é que ela bebe direto da pesquisa histórica do Frederico Pernambucano, tentando fugir do folclore puro.
Livros sobre o cangaço no cinema
Se você quer entender como o cangaço foi filmado, mitificado e discutido nas telas, esses são os principais livros publicados sobre o tema.
Cangaceiros e Fanáticos, Rui Facó, 1963. Clássico que influenciou Glauber Rocha. Analisa cangaço e messianismo como revoltas sociais. Base direta para Deus e o Diabo na Terra do Sol. Lampião, Senhor do Sertão, Elise Grunspan-Jasmin, 2006. Biografia densa usada como fonte em filmes e minisséries. Traz documentos, cartas e desmonta vários mitos.
Guerreiros do Sol: Violência e Banditismo no Nordeste do Brasil, de Frederico Pernambucano de Mello, 1985. Considerado a bíblia do tema. É o livro base da novela Guerreiros do Sol.
O Cangaço no Cinema Brasileiro, 2005, de Maria do Rosário Caetano. Este livro é considerado o mais completo sobre o subgênero. Analisa desde O Cangaceiro, 1953 até a Retomada. Traça as três citadas no texto acima. Outro livro, Lampião da Esquina à Tela Grande, de José de Almeida Jr., 1997. Foca na construção do mito de Lampião no audiovisual. Compara jornal, cordel e cinema. Ótimo pra entender como virou popstar.
O Imaginário do Cangaço, 1998, de Ismail Xavier, autor que referência em cinema brasileiro. Aqui ele pega Glauber Rocha e analisa como o cangaço virou metáfora política no Cinema Novo. Por fim, mas não menos importante, Benjamin Abraão: Entre Anjos e Cangaceiros, 1999 de José Umberto Dias. Conta a história do libanês que filmou Lampião em 1936. É a base direta de Baile Perfumado.