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IMAGEM: Debate sobre gordofobia e padrões estéticos chega a produtos culturais

Alexandra Gurgel é pioneira na temática na internet. Conheça artistas, influencers e militantes que ajudam na discussão sobre o respeito o corpo

CB

22 de Janeiro de 2021 às 11:15

Foto: Divulgação

A quarta onda do feminismo se firmou em 2013 e trouxe para o debate a emancipação e o empoderamento das mulheres. O corpo, tão cultuado por causa dos padrões estéticos, tornou-se um tema importante sob a perspectiva de liberdade. Esse movimento tem crescido e levantado o debate sobre a aceitação aos diferentes tipos de corpos, a partir das vozes de influenciadoras, militantes, artistas e até marcas.

 
A jornalista, escritora e comunicadora Alexandra Gurgel, hoje moradora de Brasília, é pioneira na abordagem da gordofobia e do conceito de corpo livre no ambiente digital. Em 2015, ela criou o canal no YouTube intitulado Alexandrismos, em que aborda aceitação e amor-próprio para os corpos gordos. Ela também leva a discussão para o perfil no Instagram (@alexandrismos), para o movimento Corpo Livre no Brasil e para as páginas de livro, sendo autora da trilogia iniciada em 2018 com Pare de se odiar, que ganha sequência ainda em 2021, com a obra Comece a se amar.
 
 
Ela conta que o peso sempre foi uma questão, assim como as dietas, os distúrbios alimentares (bulimia e anorexia) e os procedimentos estéticos. Muito nova, com apenas 9 anos, ela percebeu “que não era normal”. “Comecei a não gostar de mim muito cedo. A odiar mesmo o meu corpo e colocar como o único objetivo da minha vida emagrecer. Meu sorriso foi mudando. Parei de sorrir. Passei a adolescência tomando remédio, com tendências depressivas. Não tinha pessoas falando desse assunto. Eu achava que era a única pessoa problemática. Toda a minha vida girava em torno de emagrecer”, revela.
 
 
Apenas aos 25 anos, após uma tentativa de suicídio, três meses depois de uma lipoaspiração, começou a entender o que ela estava passando ao ler O mito da beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres, de Naomi Wolf, obra dos anos 1990. 
 
 
“Meu mundo se abriu. Percebi que era um problema social e que ninguém estava falando isso”, comenta. Assim criou o canal para falar sobre feminismo e corpos livres, além de compartilhar o próprio processo de aceitação. “É engraçado porque o meu processo de desconstrução está todo na internet. Meu discurso foi mudando. Eu odiava meu corpo, quem eu era. Passei a amar meu corpo, gostar de mim. Eu me descobri lésbica. Em todo esse processo fui ajudando as pessoas a também saírem do buraco que eu também estava”, lembra.
 
 
Produtos culturais
 
 
Em 2018, lançou o primeiro livro. Pare de se odiar teve sete edições e, no ano passado, tornou-se o e-book mais vendido da editora Record na pandemia. O segundo livro seria lançado em 2020, mas foi adiado para este ano por causa da covid-19. O terceiro livro também está sendo preparado. 
 
 
“Esse segundo livro é um intermediário mesmo. Porque o primeiro é para entender o seu lugar na sociedade, gostar do corpo e de você. Mas, no Comece a se amar é botar comida para dentro do seu corpo. Tem dicas de práticas e exercícios para você começar a praticar o exercício do amor-próprio. Você foi ensinada a odiar quem você é, agora precisa aprender a se amar”, explica. Desde 11 de janeiro, ela comanda o Verão da Xanda, uma série de entrevistas no Instagram, que segue até março falando sobre as experiências da estação que perpassam o corpo. Já participaram Aline Wirley e Luísa Marilac. A próxima convidada é Nanda Costa.
 
 
No segundo semestre, a influenciadora vai trabalhar na tradução de um livro best-seller internacional infantil sobre uma criança gorda, que vai entendendo que o corpo dela pode fazer tudo e é feliz com ele. “Vamos trazer pra cá, porque não existe (este tema) no meio infantil. Vamos poder atender essa demanda. Vai ser bem interessante entrar nesse universo, porque as mães cresceram comigo e agora vão aprender como lidar com as crianças”, revela.
 
 
Pioneirismo
 
 
O caminho da comunicóloga Jessica Tauane foi parecido. Ela lançou, em 2015, o canal Gorda de boa, em que cria uma expressão oposta para o “magro de ruim”, para falar sobre as vivências dela como mulher fora dos padrões. “Reparei que muitas mulheres sofriam essa opressão. Compartilharam, por exemplo, que não iam à praia há 15 anos por vergonha do corpo. Foi um dos primeiros projetos na internet”, conta.
 
 
Esse pioneirismo a deixa feliz e a faz perceber uma certa influência nas mudanças de paradigmas. “Estamos em uma onda de identidade, de afirmar nosso corpo político, mostrando que estamos, aqui, para nos amar. O que eu percebo, com Alexandra Gurgel, é que nós somos pequenas gotinhas e que, juntas, estamos formando essa onda grande de movimentos da diversidade, para mostrar que o ser humano não é hétero, cis, magro, ele é diverso”, complementa.
 
 
Ela destaca, ainda, a importância de falar sobre a gordofobia: “Falar que somos gordos, afirmar isso enquanto mulher gorda, e não fofinha, cheinha, gordinha, já é muito político. Todo preconceito que a gente sofre tem um termo. Precisamos nomear para que isso exista. É um processo de conscientização e para que as pessoas entendam o que elas estão sofrendo. O termo gordofobia é muito importante, justamente, para as pessoas entenderem o que elas sofrem”.
 
 
Próprias dores
 
A funkeira MC Carol sempre foi muito bem resolvida em relação ao próprio corpo. No entanto, ela diz que, mesmo se gostando e se aceitando, ao viver em um mundo preconceituoso e que não é preparado para os diferentes corpos, ela se viu sofrendo e transformou essa dor em música, a faixa Levanta mina, lançada em 15 de janeiro nas plataformas digitais acompanhada de um clipe. “Acho que essa música fiz mais para mim do que para os outros. Eu estava num momento complicado. A gente sofre pela forma como a gente é e acaba se deprimindo”, define.
 
 
Na faixa, escrita por Carol em parceria com DJ Thai, a artista fala sobre como é preciso buscar a autoaceitação, ao cantar “se valorizar não é querer ser melhor do que ninguém, é entender que você não é pior do que ninguém”. No clipe, ela fez questão de abordar a diversidade, colocando mulheres distintas, algo que ela sente falta na grande mídia. “Nada é igual para gente. A gente não vê mulher preta e gorda na novela, nas passarelas. E, hoje, estamos refletindo muito sobre isso. Entra ano e sai ano, e você sabe que seu perfil não estará lá. Isso acaba te deprimindo aos poucos, mesmo você se amando”, completa.
 
A cantora fala ainda sobre o que não é debatido: “O mundo quer que a gente se esconda, que a gente não viva. Não vá à praia. Não use roupa curta. A gente precisa ser vista”. Ela lembra que recentemente foi criticada ao citar que praticava esportes quando criança. “Fui uma criança gorda, mas que fazia esportes, eu treinava vôlei. Esses dias, postei falando com o meu professor da época e veio uma enxurrada de comentários gordofóbicos. Depois você entra num shopping e não acha roupa, sapato você tem que comprar dois números acima. Você entra num ônibus e não passa na catraca. Tudo isso vai te deprimindo”, acrescenta.
 
 
Conscientização
 
 
É exatamente a partir dessas questões que a curadora e produtora Jéssica Balbino destina seu trabalho. Editora do blog Margens e diretora do documentário Pelas margens: Vozes femininas na literatura periférica, ela tem promovido cursos em torno da temática. O mais recente foi lançado em 18 de janeiro, o Insurgências gordas, com participação de pesquisadoras, poetas e psicólogas discutindo o corpo gordo, com curadoria dela em parceria com Malu Jimenez, doutora em gordofobia, autora do livro Lute como uma gorda.
 
 
Para ela, essa mudança no cenário se deve ao movimento feminista e ao contexto político atrelados a um entendimento das marcas que precisavam “investir em tamanhos maiores de roupas, outras marcas sentiram a necessidade de ter corpos maiores nas propagandas e isso é positivo, mas ainda não resolve o problema. A luta tá só começando, mas eu fico feliz que o tema venha conquistando espaço”, complementa.
 
 
A jornalista diz que uma mudança real só acontecerá a partir da ocupação dos espaços em dois âmbitos: científico e político. “É urgente que pessoas gordas ou não, estejam produzindo conteúdo científico que despatoligize o corpo gordo, porque enquanto isso for tratado como uma endemia na área da saúde pública, não vamos conseguir arregimentar que precisamos de assentos maiores, macas maiores... A única forma de combater isso é dialogando com a comunidade médico e científica. Pessoas gordas precisam, urgentemente, serem humanizadas e não tratadas como “obesidade é doença””, comenta.
 
 
Em relação à área política, Jéssica Balbino diz que é necessária uma aproximação para a criação de políticas públicas. “Eleger pessoas gordas preocupadas com a pauta é um caminho lento, mas efetivo. Outro é buscar aliados nos poderes Legislativo e Executivo dispostos a criar leis, projetos e anteprojetos que viabilizem uma qualidade de vida maior e melhor pra população gorda, que é mais de 50% atualmente. Com isso, vamos garantir não do que incêndios sejam apagados, mas que essas pessoas possam não só se vestir bem, mas andar no transporte público sem constrangimento, saírem de casa, conseguirem empregos, etc”, analisa.
 
 
Obras
 
 
 Produtos culturais que representam o corpo gordo de forma positiva e sem estereótipos. Confira abaixo!
 
Literatura
 
A gorda, da Isabela Figueiredo
Fome, a autobiografia de um corpo, da Roxane Gay
Poder extra G, da Thati Machado
Não sou exposição, da Paola Altheia
Meu corpo, minhas medidas, da Virgie Tovar
 
Audiovisual
 
Dietland, na Amazon
This is us, na Amazon
Dumplin, na Netflix
 
 
Autor: Correio Brasiliense
Direito ao esquecimento

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