Novas dicas para o final de semana de dois grandes, excelentes filmes: "Ataque dos cães" e “Pieces of a Woman”. Dramas de gêneros distintos; enquanto o primeiro é um western que mostra uma história de cowboy em um tema ousado, o segundo filme mostra um drama moderno de um casal que passa por uma transformação pessoal e familiar por conta de um parto traumático.
Sente na sala, ligue a TV e se divirta.
"Ataque dos cães" (The Power of the Dog/2021) - Filme escrito e dirigido pela diretora neozelandesa Jane Campion - a mesma do magnífico "O piano" - é definitivamente um dos melhores filmes do ano passado e chegou a ser indicado em algumas categorais do Oscar em 2922. Está disponível no catálogo de serviço do streaming da Netflix.
E que título brasileiro horroroso, tira uma das melhores metáforas da história em que resume um personagem chave com uma citação da Bíblia inglesa de Saint James, do Salmo 22, versículo 20, que diz: "Livra a minha alma da espada e a minha predileta, da força do cão".
Que "espada"?
Que "predileta"?
Que "força do cão "?
Aliás, "força do cão" e não "Ataque dos cães". Assistindo o filme você conclui o quanto é importante essa citação.
Os irmãos Phil (Benedict Cumberbatch, o Dr. Estranho da Marvel, simplesmente fantástico) e George Burbank (o também ótimo Jesse Plemons) são ricos criadores de gado no ano de 1925, resquícios e herdeiros das tradições de cowboys, sendo que Phil é um homem rústico, grosso e não lida com modos e nem toma banho, ao contrário de seu irmão, mais refinado, paciente e centrado.
Um dia George se encanta com uma dona de restaurante, Rose Gordon (Kirsten Dunst), que tem um filho adolescente delicado e efeminado, Peter (Kodi Smit-McPhee). Ele acaba casando com ela e a leva para sua fazenda, onde vai encontrar resistência por parte de Phil, que não gosta dela e cria uma relação de tolerância e raiva.
A partir dessa premissa a diretora Jane - que adaptou o romance semiautobiográfico de 1967, "The Power of the Dog", escrito por Thomas Savage - cria um clima de desconstrução de arquétipos de cowboys do velho western com uma sutileza cadenciada, onde os personagens se destacam por segredos ou motivações emocionais que são revelados aos poucos.
Tudo é calculado em personalidades conflitantes, mas escondidos em camadas que são retiradas uma a uma quando você aprofunda as relações entre eles, principalmente do grosseiro Phil com o jovem Peter, com quem mantém uma cumplicidade de descoberta que avança no desmonte emocional quando ambos vão ganhando confiança no decorrer do convívio naquele ambiente patriarcal e machista.
Quando a opressão daquele ambiente destrói psicologicamente Rose, ela se entrega à bebida e busca proteger o filho de Phil, que parece manter o controle da situação.
Até que no decorrer final segredos envolvendo o passado de Phil e a vida familiar trágica de Peter - ao contar o destino do seu pai - mostra o quanto essas duas pessoas são espelhos de uma situação que redesenhou a personalidade de um e vai ainda traçar a do outro.
O filme tem tomadas de câmera majestosas, com muitos planos abertos, panorâmicas de tirar o fôlego - mostrando a dimensão do espaço e ambiente em relação àquelas pessoas e o microcosmo de emoções que vivem.
A exposição nunca é explícita, mas sutil, com linhas curtas de diálogos e expansivos nos olhares, gestos ou um único movimento que permite nos envolver de queixo caído nesse drama tão cheio de elementos.
Uma apoteose de construção de personagens e tão cativante que é impossível não sentir a claustrofobia e a tensão permanente, como preparação para algo trágico que pode ocorrer em algum momento. Mas a diretora evita cair nessas armadilhas e chuta longe os clichês para entregar um filme poderoso e com um final desconcertante.
“Pieces of a Woman” (Idem/2021) - No primeiro momento temos um casal em seu lar, ansiosos, a mulher grávida, prestes a ter o bebê está visivelmente nervosa, pede ao marido que chame a parteira, pois o parto vai ser em casa. Quando a bolsa estoura, a situação se complica e ele tenta acalmar a mulher que tem uma crise de ansiedade até a chegada de uma outra parteira que foi substituída, já que a que o casal havia escolhido estava naquele momento enfrentando um parto complicado.
A mulher então passa a sentir as contrações e entre idas a banheira para relaxar e até se acomodar na cama nua, com o marido tentando acalmar, é perceptível a dor, a agonia e o sofrimento dela.
Ainda que o pai do bebê esteja ali abraçado, acalentando a todo momento. Percebemos então pela expressão da parteira ao ouvir pela segunda vez o coração da criança na barriga que tem algo que não está bem e ela pede ao homem que ligue para pedir uma ambulância, porém ela prossegue com o parto.
Mesmo diante dos gritos e desespero da mãe, que pari a criança, aos olhos do casal. E então percebemos no primeiro momento que nasceu bem.
A parteira acalenta o casal dizendo que o parto deu certo. Mas ela respira profundamente e ao se olhar no espelho não esconde um misto de alívio e nervosismo.
O casal, alegre, troca carinhos e se emociona.
O bebê parece bem.
Não.
A parteira volta a sua atenção a eles e então nota que a criança está roxa e tem início a um processo de tensão quando a toma dos braços da mãe e tenta faze la respirar. Chega a ambulância e o pai desesperado sai correndo pedindo ajuda.
Ao olhos da mãe, a felicidade é substituída pelo desespero e ...
Então fecha a tela depois de quase meia hora e sobe os créditos iniciais do filme.
...
Não é spoiler.
Assim começa "Pieces of a Woman", filme também disponível no catálogo da Netflix, o primeiro filme de língua inglesa do diretor Kornél Mundruczó, húngaro, que usou o roteiro escrito por sua esposa, Kata Wéber. Eles já tinham feito antes "Deus Branco" (2014), vencedor da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes, e "Lua de Júpiter" (2017).
Esse é um daqueles dramas com um tema pesado, porém muito bem distribuído nos personagens - motivações e consequências - e com um elenco excepcional, até mesmo o esquisito ator Shia LaBeouf funciona muito bem como um homem que vê o seu casamento se desfragmentar após a esposa perder o bebê.
Para quem só conhecia a atriz Vanessa Kirby como a jovem princesa Margareth na ótima série 'The Crown" ou a irmã linha dura do personagem de Jason Sthatam em "Velozes e Furiosos: Hobbs e Shaw" ou mais recentemente como a senhora Susan Richard - do filme “O Quarteto Fantástico”, da Marvel - vai ser surpreendido em seu primeiro papel como protagonista neste filme de 2021
Ela é Martha, que após perder o seu bebê se culpa por não ter conseguido salva-lo. Com isso entra num luto permanente enquanto muda a sua personalidade e aos poucos destrói o seu relacionamento com Sean (Shia LaBeouf), ao mesmo tempo entra em conflito com a sua mãe, Elisabeth (a veterana Ellen Burstyn, vencedora do Oscar de melhor atriz por "Alice Não Mora Mais Aqui"/1974) que a pressiona a entrar em um processo criminal contra a parteira.
O filme é um luto constante onde a família, principalmente Martha entra em uma jornada emocional que vai minando sua percepção de vida, seja no trabalho ou em casa. Fica a deriva em decisões que acabam por quebrar o seu amor pelo marido, um mestre de obras que constrói pontes, e causa compaixão e pena da sua mãe, uma mulher rica e sozinha.
É uma luta de gestos contidos, mas precisos e que vão desfazendo camadas dessa relação familiar, onde tudo aquilo que um dia foi guardado e não discutido vem a tona como uma grande onda.
A metáfora disso são os "pedaços" se desfazendo por Martha mês a mês - o filme mostra isso de forma cronológica contando o tempo como um calendário exibido a cada mês e as consequências de suas escolhas - erradas ou não e que a levam por um caminho sem volta.
É penoso ver suas expressões perdidas ou vagas e o quanto espera por algo que a faça esquecer o luto e seguir em frente com outra percepção de vida, mas são as descobertas emocionais dos seus relacionamentos que mostram esse caminho.
Em alguns momentos "Pieces of a Woman" é intimista quando coloca seus personagens tão próximos, mas contidos devidos as próprias cobranças emocionais que os tornam reféns de seus erros não tão visíveis.
Assistam, não revelei muita coisa, tem cenas fortes, segredos revelados, decisões inesperadas e um final simbólico.
Só acho que a primeira e tensa meia hora do filme poderia ter sido feita toda em um único plano sequência sem cortes - na edição fizeram cortes sutis, mas dá para perceber - o impacto teria sido muito maior.