O modelo atual é simples: produtores brasileiros exportam polpa bruta, geralmente sem marca, embalagem ou posicionamento comercial. Essa matéria-prima chega a empresas nos Estados Unidos e na Europa, que fazem o processamento final, embalam o produto e o vendem como “superalimento amazônico” com alto valor agregado.
Os números mostram essa diferença. Em 2024, o Brasil exportou cerca de US$ 140 milhões em açaí, enquanto o mercado global do produto já movimenta aproximadamente US$ 1,3 bilhão. Em outras palavras, a maior parte da renda gerada pela cadeia produtiva não fica no país que produz o fruto.
Esse fenômeno não é novo na economia brasileira. É o modelo clássico de exportação de commodities: o país vende matéria-prima barata e compra de volta produtos processados com alto valor agregado. A lógica já ocorreu com produtos históricos como madeira, borracha, café e soja, e agora se repete com o açaí.
A diferença entre vender polpa e vender produto final envolve etapas como processamento industrial, criação de marca, design de embalagem, certificações, marketing e distribuição internacional atividades que concentram a maior parte do lucro.
A alternativa discutida por especialistas em bioeconomia amazônica é ampliar a industrialização dentro do Brasil, fortalecendo marcas nacionais e cadeias produtivas locais. Quando o produto é exportado já processado e com identidade própria, o valor agregado permanece no país.
O debate sobre o açaí, portanto, não é apenas sobre agricultura ou exportação. É sobre quem captura a riqueza gerada pela biodiversidade amazônica o produtor de matéria-prima ou quem controla a marca e o mercado.