Existem assuntos inexoráveis. Amor, vida, morte, o céu, o inferno; o sorriso e as lágrimas de uma mãe. Cléia Moreira Campos, 51 anos de idade, minha mãe, me pariu em um dia não muito diferente desse. Chuvisco com sol no céu de novembro - cena típica de verão rondoniense.
Quando pedi para entrevistá-la, minha mãe levantou as sobrancelhas e franziu a testa. O semblante desconfiado - ao mesmo tempo surpreso - não é novidade. Ela sempre foi a pessoa que descansa com o rosto fechado. Expliquei a proposta, cruzei os dedos; contei com a sorte. Ela aceitou e, com pestanas baixas e sorriso no rosto, soltou um som congênere ao riso e mudou de assunto. Assim como a minha - e a de todo o resto do mundo -, a vida de minha mãe começa na infância.
A fotografia da vez que ela escolheu para historicizar data de 1975, quando tinha apenas dois anos. No quintal da casa de seu pai, em Porto Velho (RO), sentada ao lado da irmã mais velha, em um banco coberto por um tecido florido, a mini-Cléia, perfeitamente arrumada, parece uma boneca hiper-realista. Ela usa um vestido branco com bolinhas amarelas, meias de boneca (e corpo também).
Quando peço para que ela descreva o momento, guardado em um álbum de fotografias de papel, a memória de minha mãe alça primeiro um sentimento analógico que na prática não existe mais. “Naquela época, só tirava foto quem tinha condições financeiras”. Em um tempo sem celulares, câmeras portáteis ou filmadoras, só era eternizado quem tinha dinheiro suficiente para contratar um fotógrafo profissional.
O retrato, entretanto, custou mais que meros reais (ou cruzeiros, como era na época). Longe de ser uma herdeira de família rica, para que as condições financeiras da infância da minha mãe ultrapassassem a miséria, seu pai amansava a Amazônia abrindo estradas e construindo pontes longe de casa.
Como de costume para o tempo, cuidava do lar a sua mãe: Albetiza Campos. “Mamãe que arrumou a gente, colocou esse pano [de decoração para a foto]. Não lembro de quase nada porque eu era muito nova, mas lembro dela por trás da câmera - arrumando e preparando a gente”.
Enquanto minha mãe falava sobre sua infância percebo que seu olhar fita outras fotos do álbum - em especial, outras fotos que tinham Albetiza como centro da atenção. O olhar vai e volta, igual criança assistindo filme de terror.
Neste caso, o horror é a morte da mãe - outro dos assuntos inexoráveis. Como não conheci Albetiza, não chamarei ela de avó. Aqui, o título que carrega memórias afetivas de apertões na bochecha e abraços com cheiro de Charisma da Avon não se aplica. Albetiza não é minha avó; é mãe da minha mãe. Nas fotos ao lado da dela, Albetiza veste roupas brancas e tem o cabelo amarrado no topo da cabeça. Minha mãe e ela dividem o mesmo rosto de muitos jeitos.
As duas tem sobrancelha grossa; as duas carregam um olhar sério, beirando uma carranca desconfortável ao mesmo tempo que plácida - traços que eu também carrego. “Nunca gostei de sorrir em foto. Minha cara sempre saia fechada, séria. Não sei o por que”. Perguntei, receoso (mas já sabendo parte da resposta), como era o relacionamento entre as duas na infância. A fachada da minha mãe rompe quando o pensamento traz à tona a velha carrancuda da roupa branca.
A glabela dela se liberta e sua liberdade traz água salgada. A memória da pessoa que eu nunca conheci é dolorosa. Tento mudar de assunto, mas a atmosfera da nossa sala de estar
permanece pesada - as paredes se comprimem, a tinta azul fica mais triste e o tempo lá fora piora. Começa a chover. Vejo minha mãe chorar. “Minha relação com a mamãe na infância era muito boa. Muito boa, apesar dos ‘puxarrancos’ de orelha”, ela diz depois de quase milhão de anos (mas que o gravador da conversa marca apenas como 3 segundos). “Lembro o que a mamãe fazia para manter a gente. Costurava… sempre se virou.” Minha mãe, como a mãe dela, também sempre ‘se virou’.
Inúmeros foram os empregos, tão infelizes quanto foram os casamentos - tenazes são as personalidades, na memória e na prática. Com os olhos fechados, tentando engolir o choro, talvez minha mãe não perceba nossos paralelismos. Compartilhamos as mesmas carrancas. Ela, sua mãe, eu.
Crônica escrita a partir de relatos de registros fotográficos de Cléia Moreira Campos, técnica de enfermagem e cuidadora de 51 anos, em entrevistas concedidas nos dias 13 e 26 de março de 2025.
Aluno do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). As fotografias fazem parte do acervo pessoal da entrevistada.