Neste mês de fevereiro, o que é quase uma tradição novamente teve uma sexta-feira 13, data festiva (ou não) de mau agouro, em que, no imaginário, coisas de cunho sobrenatural ou azar acontecem à nossa volta. Porém, no final dos anos 70, quando no cinema um subgênero dos filmes de terror, o slasher (um assassino à solta que mata um grupo de pessoas, geralmente jovens), começou a ter repercussão por causa do clássico sucesso de Halloween (1978), do diretor John Carpenter, um produtor, Sean S. Cunningham, teve a brilhante ideia de aproveitar a data mau-agourenta e criou Sexta-Feira 13, seguindo o molde do assassino misterioso que provoca um massacre em um lugar isolado.
“Sexta-feira 13”, o filme, teve uma das produções mais caóticas e inventivas, sem que o produtor e até mesmo quem estava envolvido colocasse muita fé no produto, pois, com um custo muito barato, cerca de 550 mil dólares — baixíssimo para o padrão hollywoodiano —, era um filme de baixo orçamento, nível “B”, que podia dar certo ou ser um retumbante fracasso de bilheteria.
Para se ter uma ideia, Sean S. Cunningham, que também dirigiu o filme e ajudou no roteiro, em uma entrevista contou que muitas cenas eram reescritas enquanto eram filmadas. Ou seja, não havia um roteiro pronto, mas uma linha a ser seguida e, conforme ia sendo rodado, poderia ter alterações. Definida na história mesmo, só a introdução.
O engodo do que era o filme de terror a ser feito, na visão do diretor, deveria ser um filme que estendesse a fórmula do assassino que ataca um grupo de jovens, mas com um banho de sangue mais elaborado e que trouxesse uma inovação na maneira de conduzir os assassinatos, utilizando a ação do assassino com a câmera em primeira pessoa. Carpenter tinha feito isso muito bem em “Halloween”, na introdução do seu filme sob o ponto de vista de uma criança que mata.
A história é um fiapo de fundo ao mostrar que, nos anos 60, no acampamento de Crystal Lake, onde monitores promovem diversão para crianças em colônia de férias, um casal responsável por cuidar das crianças acaba negligenciando o trabalho para fazer sexo. Com isso, um garoto chamado Jason Voorhees acaba morrendo afogado, o que gera um duplo assassinato no local.
O acampamento é fechado depois disso. Anos depois, um grupo de amigos compra essa área e resolve reabrir o Crystal Lake. Jovens monitores vão até o local, que fica escondido dentro de uma floresta, com os casebres e quartos próximos ao lago, e se organizam para reconstruir. Mas um misterioso assassino ronda o local e dá início a um massacre pontual.
Eu não vou dar spoiler, pois tem gente que ainda não assistiu. Mas essa base do primeiro filme não foi, de fato, o que construiu o início do mito do assassino imortal Jason, que se tornou um ícone do cinema ao lado de assassinos de slashers famosos, como Michael Myers, Leatherface (do filme “O Massacre da Serra Elétrica”) e Freddy Krueger (de “A Hora do Pesadelo”).
A figura tradicional de Jason, como foi consolidada — um homem grande usando uma velha máscara de hóquei rachada —, só surgiu no terceiro filme dessa franquia, poderoso, praticamente imortal.
Voltando ao clássico, a produção tem algumas curiosidades bem peculiares que sustentaram a base técnica, entre elas as mortes com efeitos engenhosos e criativos — principalmente no uso de efeitos especiais práticos. Nesse filme, o especialista em maquiagem e efeitos Tom Savini usou todos os recursos necessários que tinha em mãos — muitas vezes no improviso —, como o uso de sangue artificial à base de xarope de milho e corantes, além de cabeças de manequim e perfurações realistas. Um show à parte.
Outro detalhe importante, que o diretor Sean destacou, foi que, quando ele viu o filme editado e foi assistir ao copião, tanto ele quanto outros produtores e colaboradores não sentiram medo. Pelo contrário, as cenas de mortes tinham um humor involuntário e provocavam certa estranheza pela falta de suspense. Faltava algo que provocasse uma reação de medo.
Foi quando o compositor e responsável pela trilha, Harry Manfredini, entrou em cena para criar a trilha sonora, com movimentos de melodia e orquestração de impacto. Mas o maior destaque era a trilha que permeia todo o filme, principalmente nas cenas que antecedem as mortes, com a inclusão do sussurro “chi, chi, chi, ah, ah, ah” — que se tornou uma marca de todos os filmes da franquia. Marcante e inesquecível. Alguns especialistas interpretam esse sussurro como a frase “kill, mom” — que pode ser entendida como “ki, ki, ki, ma, ma, ma” — kill, mom (mate, mate, mate; mamãe, mamãe, mamãe), simulando a voz de Jason na cabeça do assassino.
Com a trilha, “Sexta-feira 13” recebeu outro tratamento e, juntando-se às mortes e sequências de suspense, tornou-se assustador para a época. O resultado foi que o filme, já completo, quando foi lançado nos cinemas de forma independente — depois foi comprado pela Paramount —, tornou-se um sucesso estrondoso, arrecadando 60 milhões de dólares mundialmente.
Com isso, motivou uma continuação que resultou em outro grande sucesso.
O filme teve como marca notável algo que depois se tornou recorrente: o uso da chamada “final girl”. Sempre há uma personagem feminina que sofre no final do filme enfrentando sozinha o monstro — foi assim em quase todas as sequências.
Devido ao grande sucesso, “Sexta-Feira 13” acabou gerando 12 filmes, além de jogos e livros, criando um fandom dedicado que mantém a figura de Jason entre as maiores da cultura pop cinematográfica.
O clássico está disponível no catálogo do serviço de streaming HBO Max e pode ser alugado na Apple TV por R$ 7,90 ou no Google Play Filmes por R$ 11,90.