Toninho Vaz, paranaense, escritor, jornalista, roteirista e biógrafo dos mais competentes, faleceu nesta terça-feira, 21 de abril, aos 78 anos. Autor das biografias de Paulo Leminski, Darcy Ribeiro — a única que não li ainda —, Luiz Melodia, Solar da Fossa, Zé Rodrix e Torquato Neto, Vaz trabalhou como jornalista na TV Globo (Fantástico, Globo Esporte e Jornal Nacional), TV Bandeirantes, sucursal carioca da IstoÉ e escreveu artigos para revistas.
Excelente escritor, Toninho Vaz deixa um rico legado, principalmente como um grande contador de histórias. Por coincidência, estava terminando de escrever um texto sobre ele e suas biografias e agora precisei fazer algumas alterações. Eu aguardava ansioso o seu próximo livro. Infelizmente, não teremos mais este prazer. Resta apenas reler as biografias e textos que escreveu.
O primeiro livro de Vaz que li foi “Solar da Fossa”, um relato delicioso deste local onde moraram futuros grandes nomes da nossa cultura, mas quando ainda não eram conhecidos.
Mais de quarenta anos depois, o autor oferece nas páginas do seu livro imagens inéditas e relatos de personalidades como Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Gal Costa, Paulo Coelho, José Wilker, Tim Maia, Betty Faria, entre outras, que divertem o leitor ao mesmo tempo em que resgatam a memória de um dos períodos culturais mais ricos da história do Brasil.
A pensão de 85 apartamentos localizada em Botafogo, no Rio de Janeiro, foi o endereço e o abrigo de poetas, compositores, jornalistas, artistas plásticos que vinham de todos os cantos do país e encontravam ali o jardim ideal para plantar suas “folhas de sonho” e materializar verdadeiras obras de arte.
O prefácio do livro é do jornalista Ruy Castro, também antigo morador do Solar da Fossa. Segundo ele, o casarão colonial de dois andares “serviu de incubadora de talentos, ideias e ousadias e mudou para sempre os rumos da cultura brasileira”.
“Pra mim chega”, a biografia de Torquato Neto, é o tema do livro seguinte. A obra mergulha na história e carreira deste poeta sensível e inconformado, um polemista inteligente e corajoso e uma das figuras mais carismáticas de sua geração.
Torquato Neto foi um letrista fundamental da Tropicália, com parcerias icônicas com Gilberto Gil ("Louvação", "Geléia Geral"), Edu Lobo ("Pra dizer adeus", "Vento de Maio") e Caetano Veloso ("Nenhuma Dor"). Suas letras revolucionárias influenciaram a MPB, com obras consagradas por Elis Regina, Gal Costa e Jards Macalé.
“Meu nome é ébano — a vida e obra de Luiz Melodia” e “O Fabuloso Zé Rodrix” são mais duas obras importantes de Vaz. O primeiro conta a história do cantor e compositor Luiz Melodia. Uma das vozes mais talentosas da música brasileira emergente nos anos de chumbo, Melodia desceu do efervescente morro carioca de São Carlos amadrinhado por Gal Costa e sob a bênção dos amigos Hélio Oiticica, Waly Salomão e Torquato Neto, conquistou a fama e também a peja de maldito.
Melodia ocupa seu lugar na história da música brasileira como um compositor inventivo e poético, e deixou obras-primas como “Pérola negra”, “Estácio, holly Estácio” e “Juventude transviada”.
Já o segundo mostra o quanto Zé Rodrix foi um personagem enigmático da música brasileira nos anos 1970. Com a lendária banda Som Imaginário protagonizou o flerte da MPB com o rock. No trio com Sá e Guarabyra fundou o estilo que seria chamado de Rock Rural. Com a gravação de Elis de "Casa no Campo", estourou em todas as paradas. E teve uma carreira solo de enorme sucesso.
Por fim, mas não menos importante, mais uma excelente biografia: “Paulo Leminski, o bandido que sabia latim”. Personagem inesquecível da contracultura da década de 1980, Paulo Leminski ganhou espaço na cena intelectual brasileira com seu jeito marginal e sua alma de judoca.
Músico e tradutor, poeta e professor, mestre e lutador, Leminski teve acolhimento de grandes personalidades da época, como Caetano Veloso, Waly Salomão, Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, entre tantas outras.
Toninho Vaz, ao meu ver, ganhou com mérito seu lugar no panteão dos talentosos biógrafos, pesquisadores e historiadores da nossa música e seus criadores. Esta é minha homenagem.
Toninho Vaz, descanse em paz.