Eu atualmente estou lendo o livro de Alexandre Dumas, “O Conde de Monte Cristo”, publicação de bolso com 1.664 páginas, que integra a coleção Clássicos da Editora Zahar. Belíssimo exemplar. A narrativa literária, que ainda não conhecia — só havia assistido aos filmes baseados na obra —, me permitiu apurar que o original de Dumas é muito melhor que qualquer adaptação cinematográfica já feita — até mesmo as que se mantêm fiéis em alguns trechos. Impossível filmar o texto na íntegra; resultaria em um filme de oito horas — no mínimo.
Mas onde quero chegar citando “O Conde de Monte Cristo” em relação ao livro “Inferno”, de Dan Brown?
Os aspectos da narrativa são totalmente diferentes, mas não deixam de ser imersivos. Dumas é único: sua narrativa é extremamente detalhista, carregada de poesia e reflexões do ponto de vista do narrador, que usa recursos como a primeira e a terceira pessoa em alguns momentos. O detalhe impressionante é como ele pontua, com um conhecimento ímpar, os locais — seja na França, na Itália e em ilhas ao redor — onde a história vai se passando, colocando os personagens em ruas, vielas, edificações, imóveis e portos que existem de fato, citando logradouros, detalhes de arquitetura e até o comportamento social do período em que se passa a história.
Dumas é um mestre da linguagem, mesmo quando utiliza colaboradores para fazer a pesquisa para os seus livros. Em “O Conde de Monte Cristo”, ele tinha todo um mapeamento detalhado de pontos turísticos e perímetros urbanos de cidades da França e da Itália, que são descritos com detalhes, fazendo o leitor atento percorrer esses espaços como se estivesse vivendo aquilo. A imersão literária é perfeita.
Dan Brown segue o mesmo roteiro de imersão pelos ambientes e espaços onde ocorrem as histórias nos livros que escreve. São partes essenciais para que os personagens evoluam na narrativa, e ele conta com os detalhes lineares dos locais para dar fluência à trama de suspense que molda no formato de um thriller literário catártico.
Sua verve em misturar ciência, arte, religião e suspense o tornou um dos escritores mais prolíficos dos últimos anos.
“Inferno” segue os mesmos moldes que o consagraram, mas ele transformou uma qualidade literária em algo expositivo demais e exagerado, em que o suspense é substituído por um guia turístico quase literal em sua narrativa.
Esclareço.
O livro "Inferno", de Dan Brown, já foi lançado há um tempo e já tem até o filme, o terceiro com o personagem Robert Langdon (vivido pelo ator Tom Hanks) — um historiador especializado em simbologia que já decifrou os segredos de "O Código da Vinci" e impediu a morte de um papa em "Anjos e Demônios".
Eu particularmente gosto muito do formato do escritor, que trabalha muito bem na pesquisa e junta fatos históricos e obras de arte clássicas para compor uma ficção que atrela mistério, ação, violência e conspiração mundial, envolvendo geralmente misticismo, religião e o sagrado. Não necessariamente nessa ordem.
É um autor superestimado, mas muito detalhista em sua narrativa, principalmente na descrição de cenários reais em que se passam suas tramas.
Esse livro, "Inferno" (publicado pela Editora Arqueiro em 2013), é a edição ilustrada, capa dura e de luxo. Recomendo que quem for ler Dan Brown — que se tornou o autor mais lido do mundo durante dois anos por causa do polêmico "O Código da Vinci" (2003), vendeu 100 milhões de exemplares e gerou dezenas de livros tentando contrapor as teorias polêmicas da história — adquira os livros nesse formato.
O autor cita inúmeras obras de arte e objetos relevantes, descreve locais históricos onde se passam sequências da história, e, no formato ilustrado, há fotos dos locais, reproduções de peças e telas, mapas e cartas. É um compêndio narrativo complementar rico, que dinamiza a obra como um todo.
Ao contrário de obras anteriores de Brown, "Inferno" tem um pecado muito grande, que me fez demorar a lê-lo. Aliás, foram três tentativas, até que, na quarta, desencantou. É chato, e a trama vive andando em círculos, com citações de pontos determinantes da história que se repetem — como se o leitor não tivesse memória.
Um exemplo: a organização secreta 'O Consórcio', que tem papel fundamental na trama, não precisa, toda vez que entra no arco narrativo, nos lembrar que é uma empresa de escala mundial, que atende líderes de países e bilionários e executa seus serviços sem questionar propósito ou motivação; basta apenas pagar.
O diretor e até um de seus empregados ficam lembrando isso a todo momento ao tentar compreender o serviço de um bilionário que tem um segredo vital para a humanidade e que pode custar milhares de vidas.
Um dos motivos que me fez adiar a leitura é o fato de a ação e as reviravoltas demorarem a ocorrer. Nessa quarta tentativa, descobri que isso só acontece de fato depois da página 202.
Quando, em determinado momento, acontece algo envolvendo a máscara mortuária do poeta italiano Dante Alighieri e um museu cercado de policiais e agentes do governo.
A história se permite ser um longo guia turístico por Florença, onde se passa a história, com a fuga de Langdon, agora acompanhado da jovem médica Sienna Brooks, que o ajuda a tentar decifrar um segredo de vida ou morte para os dois.
A fuga por jardins, pontes históricas e passagens secretas centenárias, que de fato existem nos parques turísticos do Palácio Vecchio, é cansativa e dura mais de 150 páginas, alternadas com outras duas linhas narrativas paralelas: a ação de 'O Consórcio' e a perseguição de uma assassina a Langdon.
Após acordar em um hospital em Florença sem lembrar o que lhe aconteceu nas últimas 36 horas, o simbologista descobre que está sendo perseguido por membros da organização 'O Consórcio' e que tem um ferimento na cabeça causado por um tiro de raspão.
A jovem e bonita médica Sienna acaba ajudando-o quando percebe que ele corre perigo. No apartamento dela, ele descobre um objeto em seu paletó: um miniprojetor que apresenta o mapa do círculo do inferno, baseado na obra de Dante Alighieri.
Para descobrir o que está acontecendo e que conspiração é essa que envolve a obra máxima do escritor italiano, "A Divina Comédia", especificamente "Inferno", Langdon precisa seguir pistas e até mesmo mensagens subliminares envolvendo sonhos com uma mulher de cabelo grisalho e cenas grotescas que reproduzem o Apocalipse.
A trama é costurada com essa premissa de uma conspiração de escala mundial que pode levar à emulação da peste negra como forma de salvar a humanidade — projeção de um plano mirabolante de um gênio bilionário.
Não assisti ao filme, dirigido por Ron Howard, o mesmo dos dois filmes anteriores, pois me interessei mais pela leitura. Porém, analisando friamente, deveria ter assistido.
O livro é um dos mais fracos de Dan Brown. O anterior, "O Símbolo Perdido", envolvendo a Maçonaria e a história do poder norte-americano em uma conspiração governamental, é espetacular. "Inferno" peca pela execução lenta e repetitiva.
Mas, se você é fã do autor, pode encontrar lampejos de criatividade em um ou dois pontos. Para mim, serviu como o melhor guia turístico cultural de Florença — nesse sentido, impecável.
Esse mesmo enunciado literário de “guia turístico”, que permeia quase toda a narrativa de “Inferno”, em “O Conde de Monte Cristo” tem uma fluidez absurdamente eficaz, por ser detalhista na ação dos personagens, assim como na descrição do que vamos ver através dos olhos deles, vivendo de fato as cenas construídas por Dumas.
Dan Brown já soube fazer isso melhor, ou com a mesma fluidez, em outros livros. Aqui peca, mas, ainda assim, pode-se ler sem exigir muito.