A Federação de Agricultura e Pecuária de Rondônia (Faperon), por meio de sua área técnica, apresenta uma análise objetiva sobre o ponto de equilíbrio da arroba do boi e a atual distribuição de valor na cadeia produtiva da pecuária de corte.
O estudo baseia-se em modelos econômicos aplicados ao setor, utilizando levantamentos do consultor Celso Ricardo Ferreira, parâmetros de instituições como CNA, CEPEA, Embrapa e Scot Consultoria, bem como dados de custeio levantados diretamente junto a pecuaristas de Rondônia, conferindo maior aderência à realidade produtiva local.
A análise contempla sistemas de recria e engorda praticados em todo o território nacional e incorpora custos reais de produção, tempo de ciclo produtivo, capital imobilizado e os riscos econômicos inerentes à atividade.
No cálculo, estão incluídos os custos de reposição (bezerro e recria), alimentação e manejo, sanidade, mão de obra, depreciação de benfeitorias e máquinas, além do custo da terra por arrendamento ou custo de oportunidade e da remuneração mínima do capital investido e do risco produtivo.
Os dados indicam que o ponto de equilíbrio financeiro, em sistemas de alta exigência tecnológica, varia entre R$ 308,00 e R$ 372,00 por arroba. Esses valores correspondem a médias nacionais e refletem a realidade de produtores que operam em sistemas de ciclo completo ou semiconfinamento, enfrentando elevados custos de reposição e a necessidade de remunerar adequadamente o capital e a terra.
Recomposição
Embora sistemas extensivos a pasto apresentem custos inferiores, entre R$ 240,00 e R$ 280,00 por arroba, é fundamental destacar que os patamares mais elevados representam o custo total de sustentabilidade da atividade. Esses valores não configuram lucro, mas apenas a recomposição do capital investido. Preços abaixo desse nível caracterizam prejuízo econômico e corrosão patrimonial.
A elevação do ponto de equilíbrio decorre de fatores objetivos, como o aumento do ágio da reposição animal, a valorização do arrendamento, a elevação dos custos operacionais e a maior exigência de capital ao longo do ciclo produtivo da pecuária de corte.
Em Rondônia, simulações de custeio pecuário para 2026 reforçam a sensibilidade do setor. Em cenários de recria e engorda intensiva, o custo total por cabeça pode ultrapassar R$ 5.300,00.
Quando a arroba é comercializada a R$ 290,00, a rentabilidade mensal do produtor recua para aproximadamente 0,52%, percentual insuficiente para compensar os riscos produtivos e a depreciação do patrimônio. Dados do indicador DATAGRO apontam que, em janeiro de 2026, o preço da arroba em Rondônia variou entre R$ 271,90 e R$ 287,96, valores significativamente abaixo do ponto de equilíbrio nacional e também inferiores aos cenários locais de simulação de custos para o período.
Desvalorização
Adicionalmente, observa-se que o diferencial de base praticado em Rondônia no mês de janeiro apresentou patamares superiores à média historicamente observada. De acordo com o indicador DATAGRO, o diferencial médio de base foi de aproximadamente 13%, enquanto estimativas fundamentadas no giro do agronegócio indicam um diferencial em torno de 14%.
Esses percentuais evidenciam que a desvalorização da arroba no estado extrapola os limites considerados tecnicamente aceitáveis, contribuindo de forma significativa para a ampliação das perdas econômicas ao produtor rural.
A zootecnista Cimara Gonzaga, analista técnica da FAPERON, alerta que o Custo Operacional Total (COT) já se aproxima perigosamente dos valores pagos pelos frigoríficos. Essa pressão é sentida de forma mais intensa pelo pequeno produtor, cuja escala reduzida compromete a sustentabilidade do negócio diante das margens atualmente praticadas.
A análise evidencia ainda uma forte assimetria na cadeia produtiva. Enquanto o pecuarista enfrenta dificuldades para cobrir seus custos, a receita da indústria frigorífica, considerando a venda de cortes, subprodutos e exportações, ultrapassa o equivalente a R$ 1.000,00 por arroba. Dados de rendimento de carcaça da ABIEC e do CEPEA demonstram que o setor industrial possui margem para uma remuneração mais justa ao produtor.
Diferença
Essa diferença revela que, mesmo remunerando a arroba dentro do ponto de equilíbrio, a indústria mantém resultados positivos. O cenário atual não decorre de inviabilidade industrial, mas de uma distribuição desequilibrada dos resultados, na qual o produtor rural assume a maior parte dos riscos, do capital investido e da volatilidade do mercado, enquanto sua remuneração permanece pressionada.
Para o presidente da FAPERON, Hélio Dias, o fortalecimento do setor passa pelo aumento da produtividade por hectare e pela melhoria da eficiência logística, tendo a Hidrovia do Rio Madeira como eixo estratégico. Além disso, medidas como a redução da alíquota do ICMS para 4% na saída de animais em pé são fundamentais para garantir o livre comércio e evitar distorções de mercado.
Conclui-se que o pagamento de um preço justo pela arroba, alinhado aos custos reais de produção e às exigências do mercado internacional, é essencial. Somente com equilíbrio financeiro será possível assegurar que a pecuária rondoniense continue sendo um dos principais motores econômicos do estado e sustente as milhares de famílias que dependem da atividade no campo.
Referências Bibliográficas:
BISCOLA, Paulo Henrique Nogueira; MALAFAIA, Guilherme Cunha. Anuário CiCarne da cadeia produtiva da carne bovina 2024-2025. Campo Grande, MS: Embrapa Gado de Corte, 2025. 1 recurso online (Documentos, 322). ISSN 1983-974X.