Uma base isolada, no meio do deserto, imersa em um ambiente de baixas temperaturas, comunicação limitada e uma tripulação internacional vivendo em completo confinamento. O cenário parece vir de um filme de ficção científica, mas é completamente real. É alí, no meio do deserto, onde a astrobióloga Rebeca Gonçalves lidera uma pesquisa internacional inédita.
O objetivo? Responder a seguinte pergunta: é possível cultivar alimentos de forma confiável em Marte utilizando recursos locais? Se a resposta para essa pergunta por positiva, teremos um passo essencial para futuras missões tripuladas fora da Terra.
Onde fica essa base?
Tudo acontece no Mars Desert Research Station (MDRS), situado no deserto de Utah, nos Estados Unidos, considerada uma das mais avançadas bases análogas marcianas do mundo. Alí, pesquisadores vivem em total isolamento, seguindo protocolos semelhantes aos de uma missão real ao planeta vermelho, incluindo o uso de trajes espaciais, caminhadas extraveiculares simuladas e uma rotina rigorosa de manutenção dos sistemas que garantem a sobrevivência da tripulação.
A base, que existe há mais de 20 anos, funciona de laboratório para equipes rotativas de pesquisadores que estudam a vida em Marte. No local, nada é simples. Os cientistas passam por isolamento completo, com uma rotina rígida, enfrentam temperaturas baixas, ambiente seco e uma paisagem que lembra muito o que se espera encontrar no planeta vermelho.
“Nós cinco somos responsáveis por manter a base funcionando”, explica Rebeca. “O sistema de aquecimento, de oxigênio, de umidade, toda a comida, a gente precisa preparar”.
Do espaço para o “solo marciano”
Entre os experimentos conduzidos por Rebeca, está o cultivo de plantas usando três tipos de solo:
- solo orgânico comum;
- solo coletado do próprio deserto de Utah;
- e um simulador de regolito marciano, desenvolvido pela NASA a partir de dados enviados por robôs que operam em Marte.
“Esse solo é manipulado para ser o mais parecido possível com o de Marte”, explica.
Além disso, a cientista compara dois sistemas de cultivo: hidroponia e plantio direto no solo. A ideia é entender qual método funciona melhor em um ambiente extremo.
Sementes de tomates que já foram ao espaço
Rebeca já tem um histórico extenso com estudos sobre agricultura espacial. Dessa vez, a astrobióloga recebeu da Agência Espacial Canadense sementes que passaram dois meses na Estação Espacial Internacional, em microgravidade. Esse material valioso agora está sendo cultivado em um solo 97% similar ao regolito marciano, ao lado de sementes idênticas que nunca saíram da Terra.
“Esse é o primeiro experimento do mundo a cultivar sementes que foram ao espaço em solo marciano, dentro de uma base que simula Marte”, afirma Rebeca.
Para garantir resultados confiáveis, o experimento conta com várias réplicas. “Na ciência, repetir é essencial. Assim a gente consegue ter certeza de que está controlando as variáveis”, explica.